Você era um gênio

Eu não me importo com o que você tenha adquirido ao longo da vida ou com o seu Q.I. Você nasceu com um espírito próprio e único. E eu digo isso no sentido mais amplo. Não um gênio com “g” minúsculo,um “geniozinho” oposto ao de Albert Einstein. Gênio com “G” maiúsculo, como Einstein.
Nós atribuímos isso somente àquelas pessoas muito raras, que acreditamos terem nascido com um misterioso “algo a mais”: um espírito iluminado, uma visão única e uma inacreditável determinação. E acreditamos que esse “algo a mais”, estando presente tem tamanha força que por si só já ajuda a superar as mais difíceis circunstâncias. Veja o Mozart. Nasceu transbordando música. Veja o Picasso, outro gênio, a escultora Louise Nevelson diz que “Picasso já desenhava quando ainda estava no berço”. Eles são gênios, você não e nem eu. Ou, pelo menos é assim que o raciocínio padrão funciona.
Ok, vamos pegar as três características que eu citei ao definir um gênio:
brilhantismo, visão única e inacreditável determinação, e ver se você as teve quando você tinha apenas dois anos de idade.
Brilhantismo é um pouco difícil de definir. Nós descobrimos recentemente, que não podemos testar o nosso Q.I. como total segurança. Mas mesmo se pudéssemos, ele só mede uma parte muito restrita do “saber” e do “fazer”.
Então, é melhor considerarmos “brilhantismo” como um caso especial de “visão única”: visão intelectual, como uma oposição à visão artística e musical, ou à uma dúzia de outras visões que não descobrimos ainda: política, emocional, atlética, humanitária... classifique-a como quiser.
Você tinha uma visão única quando tinha dois anos de idade. Você pode não lembrar, mas é por isso que é sempre tão difícil lembrar de coisas que não podemos descrever. O fato é que, nesses primeiros anos você enxergava o mundo de uma forma original, que ninguém ao seu redor podia descrever para você. E se você achasse as palavras para descrevê-la, provavelmente ninguém conseguiria entendê-las.
Você já escutou uma criança muito pequena falar,e se, por acaso, você for mãe, você sabe que elas dizem coisas muito estranhas e espantosas. Isso é assim, pois elas estão tentando nos contar como o mundo parece, visto pela primeira vez, de um ponto de vista novo. Grandes poetas são aqueles que conseguiram manter essa habilidade de ver coisas novas e dizer o que eles vêm, mas todo mundo a teve uma vez, e você também quando tinha uns dois anos. Você não estava reinventando a língua portuguesa para seu benefício, você estava, como um amigo psicanalista me disse, fazendo uma pesquisa original sobre a natureza do universo. O que você tinha era uma visão única. Uma nova forma de ver o mundo que era totalmente sua. E também tinha uma “incrível determinação”.
Você sabia perfeitamente o que queria. E ia atrás sem a menor hesitação ou dúvida. Se você visse um biscoito em cima da mesa, não pensava: “Será que eu posso pegar? Eu mereço esse biscoito? Eu vou me fazer de bobo? Será que eu estou adiando de novo?”, você escalava uma pilha de caixas no chão e fazia o que podia para pegar o biscoito. Se não conseguisse, fazia um escândalo, dava um cochilo e mudava de objetivo. E isso não o impedia de ir atrás da próxima coisa maravilhosa que visse.
Veja só, não se precisa de autoconfiança quando se é assim. Essa palavra perde o sentido.. Está completamente focado naquilo que deseja. Essas “raras” e “especiais” qualidades que nós pensamos que nos distinguem uns dos outros. Mas você as tem. Eu as tenho.
E onde é que elas foram parar?
Quando se é muito jovem para explicações ou para fazer algo “útil”, a gente tem uma liberdade maravilhosa de ser quem a gente é. Quando se tem cinco ou seis anos de idade, se não mais cedo, o direito precioso de fazer escolhas baseadas nos nossos desejos começa a ser tirado da gente. Assim que se tem idade suficiente para se controlar e ficar sentado na escola, a lua-de-mel acaba.
Você provavelmente esqueceu como era estar na primeira série. Você tinha apenas cinco anos de experiência concretas, vendo, conhecendo, sentindo, odiando ou amando as coisas. Mas as escolas não foram feitas para aprender com você, elas foram projetadas para lhe ensinar. Inadvertidamente, elas provavelmente dão a impressão de que o seu conhecimento, seus gostos, opiniões não têm o menor valor.
Só pelo fato de ser ignorado sendo quem você era, aniquilava-se todo o rico mundo que você tinha trazido dentro de si. Tudo o que tinha para ser visto era um quadro em branco, no qual os professores deviam preencher com tudo o que eles julgassem importante você saber. Se era mais importante para você falar com o seu melhor amigo, sonhar acordado, ou desenhar, enquanto eles ensinavam a tabuada, você era punido. Se você, por acaso, soubesse falar com as plantas e elas lhe respondessem, eles não perguntavam: “Você quer aprender a soletrar ou você tem outra coisa em mente?”. Eles diziam: “Saia daí e venha mostrar se você já sabe o alfabeto”.
Se você falava com as plantas, ou com os cachorros, ou fez esculturas de lama, ou queria ser uma estrela de cinema, ou um patinador de gelo na Terra do Esquimó, você entendeu rapidamente que isso não valia nada. E assim, pouco a pouco, você esqueceu essa idéia e desenvolveu uma espécie de amnésia.
Atualmente, se você sair por aí e alguém lhe perguntar: “No que você é bom?”, você pode, facilmente, responder: “ Em nada”,querendo dizer: “ Em nada que alguém considere importante”.
Ou você pode dizer: “Bem, eu sou bom em matemática” ou “Eu sei datilografar”. Mas jamais lhe ocorrerá dizer: “Eu adoro plantas. Eu consigo lembrar o nome de quase todas elas e acho que entendo o que as deixam felizes”.
Todas as pessoas que nós consideramos “geniais” são homens e mulheres que, de alguma foram, conseguiram escapar de ter que colocar essa criança curiosa e interessada para dormir. Pelo contrário, elas devotaram a vida a equipar essa criança com todas as ferramentas e habilidades necessárias para que ela pudesse brincar na fase adulta. Albert Einstein estava brincando, sabia? Ele estava apto a fazer grandes descobertas justamente porque manteve viva a originalidade e o prazer que uma criança sente explorando o mundo pela primeira vez.

 

Trecho do livro: Oficina de sonhos - Como ter o que você realmente quer, de Barbara Sher e Annie Gottlieb

 

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