A sombra coletiva

Os seres humanos conscientemente criaram vastas civilizações como cenários para a sua evolução. No entanto, em nível inconsciente, temos acumulado uma história que vai muito além da experiência de qualquer pessoa ou época, individualmente. O que você chama de "eu" na verdade é "nós" em grau muito mais abrangente do que você imagina.
A prova pode ser encontrada em seu corpo. O sistema imunológico é um projeto coletivo. Sob seu osso peitoral há uma glândula chamada timo, que produz os anticorpos necessários para que você resista às infecções de germes e vírus invasores. Quando você nasce, seu timo é subdesenvolvido. Ao longo do primeiro ano de vida, você depende da imunidade do corpo de sua mãe. Mas o timo começa a crescer e amadurecer, até chegar à função e ao tamanho máximo, aos doze anos; depois vai encolhendo. Durante o período de crescimento, o timo lhe dá anticorpos para as doenças que atingem toda a raça humana. Você não tem de ser infectado por doença alguma; a herança da imunidade é coletiva — e, ao mesmo tempo, continuamos a aumentar o depósito conforme deparamos com novas enfermidades.
Este exemplo mostra que você não tem um corpo físico à parte. Seu corpo participa de um projeto coletivo, um processo que nunca acaba. Poderia ter escolhido outros exemplos, tais como a evolução do cérebro, mas todos eles se resumem ao DNA. Seus genes gravam o histórico do desenvolvimento humano, em nível físico. Embora a genética não tenha revelado todos os segredos do genoma, penso que o próximo passo não será físico — ele se dará no nível da alma. E a primeira tarefa, uma vez que cheguemos lá, é renovar a própria alma. A era da sombra pode chegar ao fim quando escolhermos a união em lugar da separação. O destino do self dividido está em nossas mãos.
De onde veio a sombra? O impulso pela separação criou o contraste — e a guerra — entre a luz e a escuridão. Quando a separação se torna patológica, ela se manifesta como impulsos da sombra: raiva, medo, inveja e hostilidade. Portanto, a alma humana se sente simultaneamente divina e diabólica, sagrada e profana, santa e pecadora. Nas tradições da sabedoria oriental, temos um ditado que diz que o pecador e o santo estão meramente trocando de papel. O pecador tem um futuro e o santo tem um passado nos quais têm papéis invertidos. A cobiça proibida e o amor incondicional são dois lados da mesma moeda. Você não pode ter uma moeda sem cara ou sem coroa, nem uma corrente elétrica sem um terminal positivo e outro negativo.
Assim como a eletricidade, a vida não tem essência, a menos que as pessoas enviem correntes umas às outras. Quando você entender isso, a primeira coisa que perceberá é que ter uma sombra é normal. A sombra é o impulso de separação. Mas o impulso divino é o que busca a união. A escolha de criar uma sombra já se provou irresistível. Ela nos deu o self que vemos como humano, um "eu" familiar que pode ser tão bom quanto mau. Até aí, não há mistério algum. O self verdadeiramente misterioso entra em cena quando perguntamos se o poder da criação do self pode ser usado para algo novo: a união, em lugar da separação.
A separação tem sido uma viagem fascinante. O ego levou os seres humanos a uma corrida louca através da alegria e da tragédia. Nossa alma, esse lugar de contradições, paradoxos e ambigüidade, constantemente luta com dois impulsos: o divino e o diabólico. Vemos pouquíssimas razões para abrir mão de um pelo outro. Secretamente, amamos nossas garotas e garotos malvados. Chamar alguém de "danado" é um elogio invejoso.
No entanto, sob outra perspectiva, temos perambulado na névoa da ilusão. Em vez de exercitarmos nosso poder para criar qualquer self que quisermos, temos passivamente herdado um self dividido, com toda a infelicidade e os conflitos que ele traz. Uma vez que você decide que "eu e meu" definem quem você é, os perigos da separação são inevitáveis. Não se pode ter Deus sem o Diabo.
O que é o Diabo? É a sombra mística, o anjo caído, mas ele nasceu divino. Na verdade, outra forma de interpretar a palavra "diabo" é "o divino quando não se sente bem". Há uma conclusão chocante escondida por trás disso: não se pode ter um universo se não houver a escuridão lutando contra a luz. O contraste não soa empolgante; porém, uma vez que ele explodiu no universo visível, o resultado foi incrivelmente dramático; um holograma vivo, do bem e do mal. Não existe um só átomo ou subpartícula atômica no cosmos que não tenha sido listada no drama de opostos, começando pelas cargas elétricas e evoluindo até a batalha entre Satã e Deus.
O universo visível nos deu o pano de fundo de nossa evolução; o domínio invisível nos deu a alma. Os dois caminham de mãos dadas. Na verdade, são um. Qualquer mudança que você faça no nível da alma também gera uma modificação no mundo externo, que é um espelho da alma. Você não está empacado com a herança daquele drama antigo, no qual uma alma pecadora luta para alcançar a luz — e pode ou não ser bem-sucedida. Esse drama espiritual sustenta a louca jornada do ego. Ele transforma o mundo inteiro em uma área de lazer para o bem e o mal, e tudo que vem junto: pecado e redenção, tentação e retidão. A noção de criar uma nova alma — e uma nova história para acompanhá-la — é tão estranha quanto empolgante.
O impulso pela separação nos deu a realidade que conhecemos. Que impulso nos dará uma nova realidade? Pode-se chamá-lo de impulso holográfico. O impulso holográfico ignora os detalhes e objetivos da plenitude. Ele cria cenários tridimensionais nos quais o interno e o externo, se fundem num só. A maioria das pessoas já viu um holograma criado com o uso da luz a laser. Utilizando apenas o fragmento de uma foto ou objeto, o laser pode recriar o objeto, ou a foto, de forma integral, como se fosse mágica. Em vez de um fragmento, a plenitude surge à sua frente. Da mesma forma, mesmo que você esteja preocupado com os fragmentos da vida diária — cozinhar, trabalhar, divertir-se, coisas de que gosta ou não —, na realidade, sua mente projetou um holograma para você habitar. Você vive dentro da plenitude. O impulso holográfico não pode ser desligado ou destruído. Embora você possa olhar em volta e desgostar de muita coisa que vê em seu mundo pessoal, sentindo-se encurralado por outras pessoas e situações difíceis, você detém o poder de criar um holograma totalmente novo. Um novo holograma implica um novo self. Nenhum dos dois pode ser obtido isoladamente. Na verdade, é mais fácil criar a plenitude do que mudar sua realidade parte por parte.
Para ter a mudança holística, você precisa se envolver com o nível de criação holística. Há um exercício fascinante que dá uma dica de como isso pode funcionar. Feche os olhos e imagine uma experiência visual vívida, como um pôr do sol tropical no alto de uma montanha. A imagem, em si, pode ser qualquer coisa, contanto que você possa visualizá-la profundamente, em cores. Agora, imagine um sabor que você adora, como o de chocolate ou café. Entre profundamente nessa sensação até, de fato, saboreá-la. Passe para um som que você gosta muito, por exemplo, sua música preferida; depois, uma textura deliciosa, como veludo, e, finalmente, um cheiro, como o de rosa damascena ou lírio.
Após imaginar essas experiências vívidas com os cinco sentidos, abra os olhos. Você se surpreenderá com o que verá. O mundo comum estará reluzente e vivo. As cores estarão mais brilhantes. Haverá uma vibração no ar. Essa mudança impressionante é relatada por todos, e isso demonstra que até mesmo uma ligeira ênfase em seu mundo interior faz com que o mundo externo automaticamente a acompanhe. O que temos aqui é uma dica para um dos mais profundos segredos espirituais: o poder de alterar a realidade. Tal poder não está disponível na superfície da vida, motivo pelo qual as pessoas se sentem arremessadas de um lado para o outro pelas circunstâncias externas. Você precisa encontrar o nível da alma, onde o impulso holográfico pode criar qualquer coisa.

Trecho do maravilhoso livro O efeito sombra de DEEPAK CHOPRA, DEBBIE FORD e MARIANNE WILLIAMSON

 

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