Mente e Medicina
"Quem ensinou tudo isso ao
senhor, Doutor?
A resposta veio prontamente:
- O sofrimento.
ALBERT CAMUS,
Uma dor vaga nas virilhas me mandou para o médico. Nada parecia errado até ele
ver os resultados do exame de urina. Continha traços de sangue.
- Quero que você vá ao hospital e faça alguns exames... função renal,
citologia... disse o médico, num tom objetivo.
Não sei o que ele disse depois. Minha mente pareceu paralisar-se à palavra
citologia Câncer.
Tenho uma nebulosa lembrança de que ele me explicou quando e aonde ir fazer os
exames. Era a instrução mais simples, mas tive de pedir-lhe que a repetisse três
ou quatro vezes. Citologia minha mente não largava a palavra.
Esse único vocábulo me fazia sentir como se houvesse acabado de ser assaltado na
porta de minha própria casa.
Por que teria eu reagido tão fortemente? Meu médico estava apenas sendo
minucioso e competente, verificando as ramificações numa árvore de decisão
diagnostica Havia uma minúscula probabilidade de que o problema fosse câncer.
Mas essa análise racional era irrelevante naquele momento. Na terra dos doentes,
as emoções reinam supremas; o medo não respeita o pensamento. Ficamos tão
emocionalmente frágeis quando estamos doentes porque nosso bem-estar mental se
baseia em parte na ilusão da invulnerabilidade. A doença - sobretudo uma doença
séria - estoura essa ilusão, atacando a premissa de que nosso mundo privado está
a salvo e seguro. De repente nos sentimos fracos, desamparados e vulneráveis.
O problema é quando a equipe médica ignora como os pacientes reagem
emocionalmente enquanto eles cuidam de sua condição física. Essa falta de
atenção à realidade emocional da doença esquece um grande volume de indícios que
mostram que os estados emocionais das pessoas às vezes desempenham um papel
importante em sua vulnerabilidade à doença e no curso da recuperação Demasiadas
vezes, falta à moderna assistência médica inteligência emocional
Para o paciente, qualquer encontro com uma enfermeira ou médico pode ser uma
oportunidade de uma informação tranqüilizadora, conforto e alívio ou, se tratado
com infelicidade, um convite ao desespero. Mas muitas vezes a equipe médica é
precipitada ou indiferente à angústia do paciente. Claro, há enfermeira e
médicos piedosos, que se esforçam tanto por tranqüilizar e informar quanto por
ministrar cuidados médicos. Mas a tendência é para um universo profissional em
que imperativo institucionais tomam a equipe médica indiferente às
vulnerabilidades dos pacientes, ou sentindo-se demasiado pressionada para fazer
alguma coisa em relação a eles. Com as duras realidades de um sistema médico
cada vez mais cronometrado por contadores, a coisa parece estar piorando.
Além do argumento humanitário para que os médicos dispensem atenção junto com o
tratamento, há outros motivos compulsórios para considerar a realidade
psicológica e social dos pacientes como parte do campo médico, e não distinta
dele. A essa altura, pode-se defender cientificamente que se ganha uma margem de
eficácia médica, na prevenção e no tratamento, tratando-se o estado emocional
das pessoas juntamente com seu problema médico. Não em todos os casos e
problemas, claro. Mas olhando-se as informações de centenas e centenas de casos,
há um crescente aumento de vantagem médica, suficiente para sugerir que a
intervenção emocional deve ser parte padrão da assistência médica para a faixa
de doenças sérias.
Historicamente, a medicina na sociedade moderna tem definido sua missão em
termos de curar a doença o problema médico ignorando o mal a experiência da
doença pelo paciente. Os pacientes, seguindo essa visão de seu problema,
juntam-se numa silenciosa conspiração para ignorar como reagem emocionalmente a
seus problemas médicos ou descartar essas reações como irrelevantes para o curso
do próprio problema. Essa atitude é reforçada por um modelo médico que afasta
inteiramente a idéia de que a mente influencia o corpo de alguma forma
importante.
Contudo, há uma ideologia igualmente improdutiva no outro sentido: a idéia de
que as pessoas podem curar-se mesmo da mais perniciosa doença simplesmente
fazendo-se felizes ou tendo pensamentos positivos, ou de que são de algum modo
culpadas por terem ficado doentes, para começar. O resultado dessa retórica de
que a atitude tudo cura foi criar uma generalizada confusão e incompreensão da
medida em que a doença pode ser afetada pela mente, e, talvez pior, às vezes
fazer com que as pessoas se sintam culpadas por terem uma doença, como se isso
fosse um sinal de algum lapso moral ou indignidade espiritual.
A verdade está em algum ponto entre esses extremos. Classificando os dados
científicos meu objetivo é esclarecer as contradições e substituir as bobagens
por uma clara compreensão da medida em que nossas emoções e inteligência
Emocional desempenham um papel na saúde e na doença.
Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman
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