A psicoterapia e a cura
A nossa visão das coisas e a
nossa experiência permitem-nos, no entanto, afirmar que o novo e prometedor
método para curar verdadeiramente sintomas corporais é justamente a
psicoterapia.
Cabe agora, no final do livro, justificar a nossa afirmação. Quem tenha
conseguido desenvolver a visão que lhe permite observar como em cada processo e
sintoma corporal se manifesta um fator psíquico saberá também que os problemas
que se exteriorizam no corpo só se podem resolver mediante processos da
consciência. Não temos conhecimento de quaisquer indicações ou contra-indicações
da psicoterapia. Verificamos apenas
que existem pessoas que estão doentes e cujos sintomas as encaminham para a
cura. Cabe à psicoterapia auxiliar o Ser Humano nesse processo evolutivo. Por
essa razão aliamo-nos aos sintomas no tratamento do paciente e ajudamo-los a
alcançar os seus objetivos - porque o corpo tem sempre razão. A medicina
acadêmica faz precisamente o contrário - toma o partido do paciente na luta
contra o sintoma. Nós situamo-nos sempre do lado da sombra e ajudamo-la a sair
para a luz. Não procuramos lutar contra a doença e os seus sintomas mas sim
utilizá-los como eixo central para a cura.
A doença é a grande oportunidade do Ser Humano - o seu bem mais precioso. A
doença é o Mestre pessoal de cada um no caminho da cura. São muitos os caminhos
que conduzem a esta meta, na sua maioria, árduos e complicados - aquele que nos
está mais próximo e se adequa mais ao nosso caso concreto costuma, no entanto,
ser descurado: o caminho da doença. É sem dúvida o caminho menos susceptível de
nos levar a enganarmos a nós mesmos ou nos iludirmos. Talvez por isso seja tão
mal--amado. Tanto na terapia como no presente livro pretendemos libertar a
doença do habitual enquadramento limitado pelo qual costuma ser contemplada e
expô-la na sua verdadeira relação com a existência humana. Quem não estiver
disposto a orientar-se por este novo sistema de valores ver-se-á forçado, pela
força das circunstâncias, a compreender mal todas as nossas afirmações. Quem, ao
invés, aprenda a encarar a doença como um caminho que tem de ser percorrido verá
abrir-se diante de si um mundo de novas perspectivas. A nossa maneira de tratar
a doença não torna a vida nem mais fácil nem mais sã; pretendemos apenas
devolver ao Ser Humano a coragem para encarar, olhos nos olhos e com
sinceridade, os conflitos e problemas deste mundo polar. Desejamos acima de tudo
dissipar as ilusões deste mundo pleno de conflituosidade inimiga que conduzem a
pensar que se possa erigir um paraíso terreno sobre os alicerces da falta de
sinceridade.
Hermann Hesse escreveu: «Os problemas não existem para serem resolvidos, são
apenas os pólos entre os quais se gera a tensão necessária para a vida.» A
solução está para além da polaridade - mas para chegarmos a ela haverá que
unificar os pólos, reconciliar os opostos. Apenas quem tenha conhecido os dois
pólos conseguirá dominar esta difícil arte da união dos opostos. Para tal há que
estar disposto a encarar e integrar com valentia todos os pólos. Solve et
coagola, referem os textos da Antiguidade: dissolve e unifica. Antes de nos
aventurarmos na grande empreitada da Boda Química - a unificação dos opostos -
temos de discernir primeiro as diferenças e sentir na pele a separação e a
divisão. Para tanto, o Homem tem, antes de mais, de descer à polaridade do mundo
material e mergulhar no corporal, na doença, no pecado e na culpa para aí
descobrir, na mais escura noite da alma e no mais profundo desespero, a luz do
conhecimento que lhe permita encarar o seu percurso através do sofrimento e da
dor como um ato significativo que o ajudará a reencontrar--se onde nunca deixou
de estar: na unidade.
Conheci o bem e o mal,
O pecado e a virtude, a justiça e a injustiça;
Julguei e fui julgado,
Passei pelo nascimento e pela morte,
Pela alegria epela dor, pelo céu e pelo inferno;
E finalmente compreendi
Que eu estou em tudo
E que tudo está em mim.
HAZRAT INAYAT KHAN.
Trecho do livro A Doença Como Caminho, de Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke
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