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A
psicoadaptação é um dos mais importantes fenômenos que atuam no
inconsciente, nos bastidores de nossas inteligências, e afeta toda
nossa história de vida. Ele foi identificado e estudado por mim ao
longo de muitos anos de pesquisa psicológica. Por meio dele, podemos
compreender as causas que conduzem o ser humano a ser um eterno
insatisfeito, um ser que sempre busca novas experiências para garantir
seu prazer de viver.
Farei uma pequena síntese desse fenômeno, sem
entrar em áreas mais profundas da sua atuação psicodinâmica. Quem
quiser estudá-lo, bem como outros fenômenos que alimentam o belo e
complexo funcionamento da mente, pode ler “Inteligência Multifocal”*.
Psicoadaptação
é a incapacidade da emoção humana de sentir prazer ou dor frente à
exposição do mesmo estímulo. Cada vez que os estímulos se repetem ao
longo da nossa história de vida, nós nos psicoadaptamos a eles e,
assim, diminuímos inconscientemente a emoção que sentimos por ele.
A
repetição do mesmo elogio, da mesma ofensa, mesma paisagem, tela de
pintura ... faz com que a emoção se psicoadapte e perca a capacidade de
reação. Com o decorrer do tempo, ficamos insensíveis. As mulheres sabem
bem disso. Quando compram uma roupa e a usam pela primeira vez, elas
experimentam um grande prazer. Entretanto, após usá-la algumas vezes,
perdem o encanto por ela. O mundo da moda surge pela atuação traiçoeira
do fenômeno da psicoa-daptação. A maior parte das mulheres não sabe por
que tem uma necessidade compulsiva de estar no rigor da moda. Na base
dessa necessidade cada vez mais comum em nossos dias está o que poucos
enxergam, uma exacerbação da atuação do fenômeno da psicoadaptação, que
provoca um alto grau de ansiedade e insatisfação.
A primeira vez que
colocamos um quadro de pintura na parede, extraímos o prazer de cada
detalhe dele. Após um mês, talvez passemos por ele sem sequer notá-lo.
Podemos psicoadaptar-nos a tudo o que está ao nosso redor. Até mesmo à
nossa própria miséria. Os que se adaptam à sua miséria psíquica e
social nunca conseguirão fazer uma “faxina” em suas vidas.
Quanto
mais uma pessoa tiver dificuldade em extrair prazer daquilo que possui,
mais infeliz e angustiada será, ainda que tenha privilégios
financeiros. É possível ter muito e ser pobre no cerne da emoção. Por
isso, sempre digo que há ricos que moram em favelas e miseráveis que
moram em palácios.
A psicoadaptação nem sempre é ruim. Há situações
em que ela é extremamente útil, pois pode aliviar-nos as dores e
frustrações. Ao passarmos por um fracasso, podemos ficar muito
angustiados. Todavia, com o passar do tempo nos psi-coadaptamos a ele
e, conseqüentemente, podemos superá-lo, bem como a angústia dele
decorrente.
Do lado negativo, o fenômeno da psi-coadaptação
contribui decisivamente para gerar no palco da psique humana
experiências de tédio, rotina, mesmice e solidão. Porém, mesmo em tais
situações, podemos vislumbrar algo positivo na atuação desse fenômeno.
O tédio e a rotina geram uma insatisfação oculta que nos impele a
superá-la. Dessa busca inconsciente de superação, surge toda forma de
criatividade humana. Por que a arquitetura, a literatura, a música e
todas as formas de artes estão em contínuo processo de transformação?
Olhem para o estilo dos carros, o design está sempre sendo modificado.
Muitos filósofos e pensadores da Psicologia não compreenderam, mas o
fenômeno da psicoa-daptação gera uma angústia existencial que
impulsiona o homem a buscar novas formas de prazer, novos estímulos que
o animem.
Apesar de esse fenômeno
ter
força para alavancar a criatividade, se ele produzir uma
insatisfação contínua e acentuada, que não é superada, pode conduzir à
instabilidade emocional e à angústia crônica. Os que nunca terminam o
que fazem e sempre reclamam de tudo o que têm, padecem desse
transtorno. Se aprenderem a ser amigos da perseverança, a lidar com a
angústia existencial e a contemplar os pequenos detalhes da vida, é
possível que resolvam esse transtorno emocional.
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