Recorrendo ao poder da mente para se curar
 

Expunha a perna atrofiada, todas as manhãs, aos raios fecundos do Sol, buscando o calor e a vida que lhe faltavam, e, assim, pressentia que algum dia encontraria a cura.
Enquanto isso, mantinha-me em oração fervorosa ao Pai e Criador e, pela fé, percebia, intuitivamente, que esse dia da cura não tardaria, e que me seria nova aurora na vida. Nesse estado de espírito, via o tempo correr.
Certo dia, achando-se o rádio ligado, no local em que tomava banhos de Sol, deixei-me
empolgar pela música que dele se irradiava. Senti ímpetos de sair correndo e percorrer o espaço, igual aquela linda melodia. Tão forte foi o impulso, que tive a sensação de que, realmente, meu Espírito se desligava do corpo e deixava a vida na Terra.
Sentia, em meu íntimo, a realidade do fenômeno, porém, no momento não sabia explicá-lo. Mais tarde, no entanto, lendo as obras de Allan Kardec, encontrei explicação, clara e racional, para o fato: meu Espírito, num fenômeno denominado transporte, com o enlevo da música e do meio ambiente, deixara, realmente, o corpo e percorrera o espaço.
Foi tão grande a minha alegria, que desejava que o acontecido viesse a se repetir.
Tentei inúmeras vezes, porém, não consegui reunir as mesmas condições de sintonia espiritual.
A minha situação levava-me a reflexões profundas, e, muitas vezes, me indaguei: "O Sol dá vida e calor, por que a minha perna não mantém esse calor?"
Encontrava a resposta por mim mesma: o Sol é fecundo, porém, se a semente não encontrar condições propicias, não pode germinar. Assim, também, ocorria com a minha perna.
Sem a força positiva, que emana do Espírito, e que foi interrompida, não podia colocá-la em movimento, dar vida aos seus músculos, nem conservar-lhe o calor.
A força espiritual aciona a energia material. Por isso, sem a ação do Espírito, o corpo não se movimenta.
Ainda que se criem todos os recursos materiais desejáveis, sem a presença e o comando do Espírito, não se pode dar vida a um corpo. Foi, então, que senti acender-se, em meu Espírito, um raio de luz. Adquiri a certeza de que o pensamento é força criadora, e que essa força poderia dar vida à minha perna paralítica. Com essa certeza, fazia os meus exercícios espirituais, executando, mentalmente, os movimentos da perna.
Não sabia andar.
Andar - palavra que me trazia um mundo de esperanças.
Mas, como andar? Se nem, ao menos, sentia a posse daquela perna, a sua integração no meu corpo.
Um dia, no entanto, aflorou-me à mente a seguinte indagação, vindo, em seguida a resposta: "Não sabe andar? Pois, observe sua irmã em seu andar. Quando ela passar por você, sinta que é você quem está andando, quem está mudando os passos e, assim, um dia, você poderá andar".
Meus exercícios físicos (massagens, etc.) transformaram-se em exercícios mentais ou espirituais. Não foi fácil sentir que andava com as pernas dos outros. Mas, depois de muito esforço e perseverança, consegui gravar, mentalmente, os movimentos das pernas da minha irmã. Notei que era necessário movimentar primeiro uma perna, depois a outra, e assim sucessivamente. Após muito tempo de observação, encontrei-me, mentalmente, na posse de alguns movimentos.
Deliberei andar com as minhas próprias pernas, sabendo, de antemão, das dificuldades que surgiriam a princípio.
Não consegui, em meus primeiros exercícios, fazer as trocas do passo, que tinha gravadas mentalmente, com minhas próprias pernas. Contudo, não desanimei.
Deixei de observar o modo de andar das pessoas, que por mim passavam, e apeguei-me, firmemente, aos exercícios diretos com os meus próprios membros inferiores, dirigidos pela força do meu Espírito.
Senti que os meus exercícios mentais estavam dando o resultado almejado. Minha perna ardia com os exercícios e já conservava algum calor, representado por uma espécie de formigamento.
Até então, não comentara com ninguém, nem mesmo com os meus familiares, a natureza dos exercícios, físicos e espirituais, que vinha pondo em prática, bem como os resultados de minha experiência.
Todavia, quando ganhei a certeza de que estava vencendo, expus, a alguns familiares, e a alguns médicos chegados à família, tudo aquilo que, comigo, vinha se passando, ouvindo destes os seguintes estímulos: "Como não! O pensamento é potência criadora, centelha divina que pode muito bem dar a vida a um membro atrofiado, tanto quanto pode causar grandes enfermidades. Tudo isso é reconhecido pela Medicina".
Tais palavras calaram fundo na minha alma.
Passei, então, com ânimo redobrado, a repetir e a aprofundar as minhas experiências, buscando a recuperação integral da minha perna. Meus exercícios eram metódicos. S6 os fazia no período da manhã, de estômago vazio e com a mente em perfeito equilíbrio, ou, então, à noite, quando podia, também, contemplar o céu, que dizia ser meu. A abóboda celeste, sempre exerceu, sobre o meu Espírito, irresistível atração. Compreendia, também, que as vibrações harmoniosas da Natureza muito contribuem para a paz íntima do doente e, em meu caso particular, entendia que isso era fundamental para o prosseguimento dos meus exercícios espirituais.
Depois daquele período de formigamento, passei a sentir, na perna, um calor tão intenso, como se ela se queimasse. Via-me forçada a paralisar os exercícios mentais por alguns instantes, para recomeçá-los quando essa sensação diminuía.
E, assim, se passaram meses até que pudesse perceber que os músculos da minha perna se movimentavam, porém, ainda de forma desordenada, irregular.
Compreensiva, entendi que a Natureza não dá saltos, o que deveria manter-me firme e perseverante, em meus propósitos, até a vitória final. Transcorrido mais algum tempo, consegui manter-me em pé, apoiada na perna direita, que já não era mais uma parte esquecida do meu corpo. Indescritível foi o meu contentamento.
Apoiada em uma pessoa, consegui dar os primeiros passos, depois de fazê-los mental ou espiritualmente.
Passei, então, a exercitar-me em uma cadeira, em cujo encosto me debruçava, segurando-me no espaldar, dos dois lados. Pude, assim, dar os primeiros passos sem auxilio de pessoas. Obtive, com isso, melhores resultados, pois podia fazer os exercícios quando quisesse e da forma que idealizasse.
Depois de já acostumada com a cadeira, passei a movimentar-me segurando nos móveis, a fim de que o corpo pudesse tomar a sua posição normal. Persistia em meus exercícios mentais, ou espirituais, objetivando exercitar os membros, em cujos nervos já sentia vida e reação. Tais exercícios foram a chave da minha cura.
O fato é que, quando não os fazia, não me adiantava tentar andar, porque os nervos não me obedeciam.
Assim, através dos exercícios mentais, feitos com método, perseverança, boa vontade e, sobretudo, fé em Deus e em mim mesma, logrei alcançar a grande vitória: andar.


"0 poder mental reside na base de todos os fenômenos e circunstâncias de nossas experiências isoladas ou coletivas. A mente é manancial vivo de energias criadoras. O pensamento é substância, coisa mensurável. A imaginação não é um par de névoa, de criações vagas e incertas. É fonte de vitalidade, energia, movimento... O idealismo operante, a fé construtiva, o sonho que age, são os pilares de todas as realizações. (Emmanuel, Francisco C. Xavier, Roteiro, Cap. 25, FEB.).

A Força da Mente, de Heigorina Cunha

 

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