Meu Orgulho

Em primeiro lugar gostaria de dizer "sem orgulho", que esse é um defeito capital que tenho já quase suprimido dentro de mim, através do meu solitário trabalho em busca do autoconhecimento nos últimos quatorze anos.
Já venci muitos desafios na senda do caminho espiritual sozinho, mas também já caí em muitas armadilhas que quase me derrotaram.
Nunca tive motivos para ter orgulho de muita coisa na vida, devido ao fato de ter vindo de família pobre, da zona rural do interior do Paraná. Desde muito cedo, senti na pele o poder destruidor do orgulho, não como agente, mas como receptador da fúria destruidora deste sentimento maligno.
Aprendi a analisar o orgulho alheio das pessoas que possuíam mais bens e maior cultura. Isso ocorreu quando ingressei-me na escola de segundo grau, em plena adolescência.
Havia uma profunda barreira entre eu e os demais alunos, a maioria da cidade, já que raramente um menino do sítio conseguia permanecer estudando até aquela fase em minha pequena cidade. Via o orgulho na alma das pessoas que se sentiam superiores a nós, oriundos da zona rural. E como isso doía na alma. Aliás, esse foi um dos mais fortes motivos que me levaram a uma introspecção interior.
Foi justamente nessa fase de buscas, angústias e sofrimentos diante das indiferenças e injustiças do mundo que fui levado a buscar dentro de mim um novo alento. Busquei adquirir forças através de estudos espirituais, iniciando (ainda bem), pelo estudo da Bíblia. Nessa época, estudei o Livro Sagrado quase de ponta a ponta. Encontrei algum conforto, mas também mergulhei em muita confusão. A Bíblia também é muito perigosa se não for bem interpretada. Foi a partir de então que me aprofundei em outros estudos de temas esotéricos. Queria encontrar alguma coisa que me trouxesse orgulho próprio. Mergulhei durante longos anos no mundo dos livros. A leitura passou a ser meu passatempo favorito e fui estudando ansiosamente de tudo, desde mera cultura intelectual até os mais estranhos cultos de magia e misticismo.
De todas as experiências que tive no campo do autoconhecimento, buscando me afirmar enquanto o mundo me negava, aprendi muitas coisas. E, uma das mais importantes foi exatamente não ser orgulhoso. Por que ter orgulho se não somos donos de nada?
Entretanto; como devemos admitir que ninguém é perfeito, reconheço que desenvolvi uma forma de orgulho que viria a perceber mais tarde: o orgulho de saber de coisas que os outros ignoravam. Passei a ter orgulho do meu próprio conhecimento adquirido. Percebi isso quando em 1997 sofri um sério acidente com traumatismo craniano e hemorragia no lobo frontal direito. Tive que me submeter a um tratamento difícil e continuado que perdurou por meio ano. Durante os três primeiros meses, tive dois desmaios seguidos de convulsão; o que me provocou um pânico. Temia vir a perder o que de mais rico eu tinha adquirido na vida: o autoconhecimento. Descobri o quanto me orgulhava de ter acumulado tanto conhecimento. Não me preocupava com quanto iria gastar com o tratamento, nem qualquer outra coisa. O que me apavorava era o medo de ter alguma seqüela que me deixasse com algum problema que me prejudicasse a inteligência.
Graças a Deus foi apenas um susto. Fiquei absolutamente curado de todo aquele trauma em cinco meses. Todos os exames, eletroencefalogramas e tomografias comprovaram isso. Mas; como tudo na vida nos serve para ensinamento, pude verificar o quanto somos frágeis e o quanto nos apegamos àquilo que possuímos de concreto seja bens materiais ou intelectuais.
Ainda hoje, confesso que o que mais me orgulha na vida é justamente esse conhecimento acumulado que me traz uma imensa alegria íntima.
Hoje em dia, muito mais maduro diante dos percalços da vida, continuo lutando para vencer meus defeitos capitais. Tenho outros defeitos muito mais arraigados em meu ser que o orgulho. Confesso que estou estudando sempre na tentativa de minimizá-los ou até suprimi-los, embora eu saiba que é uma tarefa difícil.
Durante todo esse tempo em que fiquei analisando para escrever sobre o orgulho, pude notar que, dos defeitos capitais, esse é o que menos me aflige. Talvez não seja por um mérito próprio e sim, como já afirmei; pelas circunstâncias que a vida me impôs ao longo dos meus trinta e poucos anos.

Francisco Ferreira (Mr. Smith)

 

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