Um Mundo Admirável
Se as pessoas nos abandonarem, a solidão será
amarga, mas tolerável, mas se nós mesmos nos abandonarmos, ela será quase
insuportável. Os que não procuram se conhecer vivem a pior das solidões, serão
sempre estranhos para si mesmos, forasteiros em sua própria casa. Não é possível
desenvolver as funções surpreendentes da inteligência, sem explorar nossa
psique.
Muitos não se interiorizam porque têm medo de encontrar suas mazelas, descobrir
suas fragilidade, desvendar seus medos, reconhecer sua estupidez, descortinar
suas loucuras. Quem quer se conhecer precisa em primeiro lugar ter coragem para
ser o que sempre foi, apenas um ser humano, e como tal imperfeito e mortal.
Os coitadistas não sabem que a auto-piedade é uma masmorra psíquica que asfixia
o prazer, amordaça a liderança do "eu" e bloqueia a excelência intelectual e
emocional. Quem tem dó de si mesmo nunca assume suas falhas, constrói seus
alicerces psíquicos no vazio, não cresce diante da dor nem se fortalece diante
das derrotas. Há mais coitadistas na sociedade do que imagina nossa psicologia.
Não há céus sem tempestades, nem caminhos sem acidentes. Comédia e drama,
sorrisos e lágrimas, aplausos e vaias, alternam-se na vida de qualquer um, sejam
psiquiatras e pacientes, generais e soldados, intelectuais e iletrados. O
importante não é atravessar o caos, mas o que fazer com ele.
Quem quer conquistar um grande amor tem de reciclar seu ciúme e superar sua
insegurança e seus maneirismos. Quem deseja ser um excelente estudante e um
brilhante profissional tem de sacrificar sua preguiça e contrair seu
conformismo. Todas as escolhas têm perda. Quem quer não estiver preparado para
perder o irrelevante, não estará apto para conquistar o fundamental.
Construir pensamentos é um fenômeno mais complexo do que a proeza de pegar uma
arma e, de olhos vendados, atirar numa mosca que está num edifício localizado em
outro país e acertá-la. Não nos damos conta de como a inteligência humana é
fascinante. Você talvez possa pensar que nunca acertou grandes alvos na vida,
mas, ao construir um pensamento, seja ele brilhante ou estúpido, acertou alvos
incríveis no pequeno e infinito mundo da sua psique.
Por não estudarmos o funcionamento da mente com profundidade, temos cometido
atrocidades e erros imperdoáveis ao longo da história. Matamos, ferimos,
diminuímos, excluímos seres da nossa própria espécie como se fossem diferentes
uns dos outros, como se fossem animais. Os senhores de escravos não entendiam
que o complexo processo de construção de pensamentos nas crianças, pais e mães
negras era exatamente o mesmo que havia neles.
Por que julgamos sem compaixão pessoas dependentes de drogas, prostitutas,
mendigos, portadores de psicoses ou depressão? Por que na Grécia Antiga, berço
da filosofia, um terço da população era de escravos? Por que ainda hoje
imigrantes são discriminados e taxados como invasores de uma nação que faz parte
do planeta Terra, do qual somos apenas hóspedes?
Há muitas respostas para nossas loucuras, mas a mais forte entre elas é que
nosso "eu" não é equipado educacionalmente para conhecer a si mesmo e
desenvolver autocrítica. Vivemos num quarto escuro, desnutridos de
autoconhecimento, sem liberdade para transitar com maturidade pelos espaços da
nossa mente.
Como Homo sapiens usamos o pensamento para descobrir o mundo que nos cerca, mas
o usamos pouco para conhecer o mundo que somos.
A educação que não forma "mentes que se conhecem" tem cometido alguns erros
dramáticos no processo de formação dos alunos, sejam eles crianças, jovens ou
adultos. É fundamental passarmos da era das escolas informativas para a era das
escolas de inteligência. O futuro da humanidade depende de pessoas que
desenvolvem um "eu" lúcido e maduro que aprende a conhecer a si mesmo. Para isso
precisa trabalhar sistematicamente:
1. A arte da interiorização
2. A arte da observação
3. A arte de proteção da emoção
4. Pensar antes de reagir
5. Colocar-se no lugar dos outros
6. Expor e não impor as idéias
7. A solidariedade e a tolerância
8. A resiliência: capacidade de suportar dificuldades e manter a integridade
9. Investigar as causas da ansiedade
10. Questionar os fundamentos das inseguranças e dos medos
11. Discutir a timidez, o pessimismo e o sentimento de incapacidade. E entender
que não existem pessoas "burras" ou desinteligentes, mas pessoas que não
desenvolveram suas habilidades. Não há quem não as tenha.
12. Abrir a mente para pensar em outras possibilidades
13. Ter consciência que não há mentes perfeitas. Todos temos nossos "fantasmas".
Se não é possível aboli-los, deveríamos pelo menos domesticá-los. E, para isso,
jamais deveríamos dar as costas para a dor psíquica. Enfrentar com inteligência
as angústias, perdas e decepções é o caminho lento, mas consistente, para
deixarmos de ser vítimas e nos tornamos protagonistas da nossa história.
Do livro: Mentes Brilhantes, Mentes Treinadas, de
Augusto Cury
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