Mude o seu filme

Às vezes você ouve a crítica falar muito bem de um filme e fica doido pra ver. Põe um roupa legal, passa perfume, paga R$ 10 de estacionamento e mais R$ 10 de ingresso, se não for dia de promoção. Enfrenta fila, empurra-empurra, compra pipoca excessivamente salgada, gela com o ar condicionado e sai dali se perguntando “mas que droga, o que é que eu vim fazer aqui?”. Como bem observou Luiz Antonio Gasparetto, muitas vezes o filme que criamos dentro das nossas cabeças, sonhando com os comentários dos outros, é muito melhor que aquilo que vemos na tela. A expectativa acerca da produção a coloca num nível superior, não nos contentamos apenas com uma simples história, bons atores, direção competente, bela fotografia; queremos nossos sonhos ali projetados e realizados.
Decepção...
Mas ao entrarmos no cinema completamente desprevenidos, livres de qualquer ansiedade, podemos encontrar mensagens surpreendentes na comedinha mais ordinária e previsível a que se possa assistir...
Assim fazemos também na “vida real”. Desejamos coisas que ouvimos dizer serem boas ou mesmo ideais para nós; muitas delas julgamos ser inatingíveis e nos frustramos pela simples idéia de não sermos capazes de conseguir algo que nem ao certo sabemos o que é, ou se realmente se presta às nossas necessidades.
Muita energia é gasta em torno do que não vai dar certo. Generalizamos experiências ruins do passado como as únicas do nosso repertório de lembranças. Eliminamos as coisas boas ou distorcemos os momentos de felicidade associando-os a “coisas terríveis” que vieram depois. Não somos preparados para viver o presente. Você é um bom estudante porque tem de ser um bom profissional... no futuro. Seja bom filho, assim será — futuramente — um marido e pai exemplares. O desejo é sempre colocado adiante — e nós correndo atrás dele — nessa pantomima que aprendemos a encenar como se fosse “vida real”. A felicidade está no futuro e este nunca chega, porque sempre é adiado “para amanhã”.
É certo que aprendemos através da dor. Uma doença tida como incurável, uma perda significativa ou qualquer tipo de carência evidenciada são capazes nos ensinar a viver o presente com avidez. Mas podemos nos deixar levar, nesse aprendizado, pelo caminho do amor, muito mais seguro, sábio, enriquecedor. Fomos moldados para aceitar as dificuldades da vida e temos de nos empenhar exaustivamente para reaprender a nos voltar à verdadeira — e muito simples — natureza das coisas.

 

Trecho do livro Prazer em Conhecer-se: Treinamento em inteligência emocional, de Regina Maria Azevedo

 

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