O resgate da liderança do eu

 

O resgate da liderança do eu no foco de tensão refere-se ao gerenciamento das reações instantâneas (ansiedade, desespero, medo, impulsividade, etc.) detonadas pelo fenômeno do gatilho da memória. Se o eu tiver êxito em atuar na tensão, ele não apenas domina o foco de tensão, mas também administra os territórios de leitura da âncora da memória e, conseqüentemente, recicla os pensamentos produzidos pelo fenômeno do autofluxo, principalmente se estes forem fixos e negativos.
Por exemplo, se um paciente produzir em determinado momento um ataque de pânico, ele terá segundos para resgatar a liderança do eu no foco de tensão, caso contrário, o palco de sua mente será invadido por pensamentos e emoções produzidos pelo fenômeno do autofluxo e que serão difíceis de serem administrados. Do mesmo modo, se um paciente começa a produzir, por meio do gatilho da memória, pensamentos negativos que aumentam o nível do humor deprimido ou do transtorno obsessivo ou do desejo compulsivo de usar drogas, ele terá poucos momentos para atuar nesses pensamentos e emoções e reciclá-los.
Diante de qualquer foco de tensão, ou seja, diante de qualquer turbulência emocional e de pensamentos angustiantes, cumpre ao eu resgatar sua liderança e administrá-lo, discuti-lo, criticá-lo, dar-lhe um novo significado, silenciosamente, no palco da mente, caso contrário, o fenômeno do autofluxo dominará a inteligência. Por exemplo, há pessoas extremamente negativas. Qualquer problema, por mínimo que seja, detona pensamentos negativistas. Se elas não atuarem em cada idéia e reação negativa, serão sempre vítimas de sua miséria e, o que é pior, estarão registrando de volta tais idéias e reações, acrescentando, dia-a-dia, mais tijolos na sepultura do seu negativismo.
Recordo-me de um empresário que sofria de depressão e transtorno obsessivo. Além disso, tinha uma grave timidez, que muitas vezes era interpretada como se ele fosse uma pessoa orgulhosa e insociável. Os tímidos são pessoas simples e humanas, mas vendem pessimamente a sua imagem. Na terapia, procurei fazê-lo compreender os papéis da memória e resgatar a liderança do eu nos focos de tensão. Ele deu um salto na qualidade de vida.
Se os pais e as escolas ensinassem os alunos a intervir no seu mundo psíquico, teríamos homens menos doentes e muito mais saudáveis.
De fato, um dos mais graves erros da educação familiar e escolar, bem como de alguns tipos de psicoterapias, é transformar o ser humano num espectador passivo de sua própria miséria. As doenças psíquicas, incluindo o cárcere das drogas, alojam-se em pessoas passivas, alojam-se em quem não tem coragem de intervir nos focos de tensão.
Repito  sempre  que  o  grande  entrave  no tratamento psicológico não é a doença do doente, mas o doente da doença. A grande dificuldade é a disposição do eu em modificar a sua história e não a dimensão da sua doença. Às vezes, a doença não é grave, mas o doente é frágil, passivo, descrê de sua capacidade, vive a prática do coitadismo e do auto-abandono. Esse paciente é difícil de ser ajudado, pois é quase que impenetrável.
Por outro lado, às vezes, a doença é grave, uma depressão séria ou uma dependência crônica de drogas, mas o paciente tem grande disposição de mudar a sua história e de atuar dentro de si mesmo. Além disso, apesar de assumir que está doente, é inconformado com sua doença. Ele exige ser saudável e reivindica dentro de si mesmo o direito de ser livre e feliz. Um paciente assim, por mais grave que seja a sua doença, certamente sairá do seu cárcere. O problema não é ser doente, mas é conformar-se em ser doente.
Solicito aos educadores que ensinem os seus alunos a serem agentes modificadores da sua história, que os estimulem a enfrentar os seus medos, a discutir consigo mesmos os seus conflitos, tal como a timidez.
A timidez é uma fábrica de sofrimento. Muitos jovens têm timidez patológica ou doentia e a educação clássica não faz nada por eles.
Peço também aos professores que os estimulem a fazerem no palco de suas mentes, sem ninguém ouvir, uma mesa redonda com a insegurança, o complexo de inferioridade, o conflito com os pais, a agressividade, a dependência de drogas. Uma das coisas mais saudáveis que uma pessoa deveria fazer e não faz é conversar consigo mesma e criticar o lixo que passa em suas mentes.
Não podemos ficar esperando nossas crianças e nossos jovens ficarem doentes para depois tentar tratá-los. Isso é injusto e desumano. As doenças psíquicas impõem grande sofrimento e podem apagar o brilho da vida.

 

Trecho do Livro A pior prisão do mundo, de Augusto Cury

 

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