Iniciando a grande busca

Está na hora de começar a procurar onde faz sentido procurar. O que é essencial não está lá fora. O que é essencial está mesmo dentro de você. Mas lá dentro é assustador e escuro, e não é fácil procurar no escuro. E ninguém jamais nos ensina como procurar. Quantas aulas você já teve em toda a sua carreira educacional, que lhe ensinasse sobre você? Ensinaram-lhe matemática, e não digo que isso não seja essencial, mas você pode viver sem isso. Sabia disso? É bom ter isso! É bom saber ler, mas você também pode viver muito alegremente sem saber ler. Não os estou encorajando a não aprender a ler, muito embora muitos de vocês tenham passado anos aprendendo a ler e hoje não leiam nada. As estatísticas mostram que a média dos que têm diploma - isso pode ser um choque - lê, talvez, um livro por ano, depois de diplomados.
Não há cursos de vida, não há cursos de amor, não há cursos de "Sinto-me Só. O que Posso Fazer?" E quando você quer dar esses cursos, juro, é tratado como se fosse um idiota. Fui chamado de "O Doutor do Amor". Deus do céu! E, supostamente, uma das maiores honras que me foram concedidas foi uma carta me convidando para aparecer em um programa "O Que É que Eu Faço?"
Verdade, juro! "O Que é Que Eu Faço?" E a pessoa disse: "Nunca vão adivinhar!"
Vá a uma biblioteca e pegue todos os livros sagrados e sente-se e os leia, procurando os pontos em comum. Que maravilha! Há tantos! Jesus disse: "Se quiser encontrar a vida terá de procurar dentro de si'. Buda disse o mesmo. Os Livros Sagrados hebraicos disseram o mesmo. O Alcorão, o Gita, Livro Tibetano dos Mortos*, o Tao - todos lhe lembram isso. As viagens fora de si não têm valor. São elas que levam para a floresta, onde você vai se perder. Se você quiser respostas para você, as respostas estão dentro, e não fora.
Mas o que pensamos ser essencial? Bem, primeiro, uma das coisas que julgamos essenciais - e trabalhamos a maior parte de nossas vidas por ela - é este corpo. Achamos que isto é essencial. Passamos tanto tempo com isso que enriquecemos o comércio!
Meu Deus, as milhares de variedades de pastas de dentes. E os milhões de tipos de xampus. Lembro-me de que, quando eu era menino, nós lavávamos os cabelos com sabonete comum. E agora há um tipo para cabelos finos, para os grossos, para ralos, para queda de cabelo, para cabelos eriçados, para falta de cabelo! Há tônicos capilares para crianças, bebês, adultos e idosos!
Nem podemos partilhar os nossos tônicos de cabelos! É realmente um fenômeno distanciador, pensando bem.
Vocês não se cansam de toda essa tolice? Fazem isso, e aquilo, e isso e aquilo. Depois se vestem e saem, prontos para o seu dia. Depois voltam para casa e fazem tudo na ordem inversa. Tiram tudo e vão para a cama. De manhã, tornam a vestir tudo de novo! Mas fazemos isso porque temos medo de que as pessoas que nos cercam nos esnobem, se não usarmos certo tipo de desodorante. E voltam a nos procurar, se o usarmos. Então, usamos!
O corpo é apenas um veículo. É um veículo magnífico porque carrega o que é essencial, mas em si não é essencial. Então, o que é essencial? Achamos que o nosso conheci mento é essencial e nos viciamos no nosso conhecimento. Nós nos esquecemos de que os fatos não constituem sabedoria. Aprendemos os fatos e passamos a vida enchendo nossas mentes com fatos que consideramos essenciais. Mas esses fatos são, em sua maioria, estática inútil. E nós nos viciamos nessa estática! Então seja o que for que tente entrar, que seja novo, tem que passar pelo crivo dessa estática, por esse conhecimento velho, obsoleto e inútil. E é por isso que é tão difícil para alguns de nós nos modificarmos.
Muitas vezes pergunto às pessoas: "Você é mesmo o você de você? Ou é o você que os outros lhe disseram que é?" As pessoas passam a vida toda nos dizendo quem somos.
Alguns fazem uma profissão, e, com outros, isso é feito de modo inconsciente! A mamãe, por exemplo, no mercado, com o filho pela mão, dizendo à amiga: "Este é o burrinho. O irmão é inteligente. Mas a gente tem de ter alguns burros, e afinal ele não é mau menino. Não me dá trabalho". O que ela está dizendo a esse menino?
Pensa que ele é surdo? Todo mundo ensina a todo mundo, o tempo todo, o que são e quem são. Por isso é que todo mundo é professor. Como pessoa afetuosa, é bom você ter muito, muito cuidado com os rótulos que põe nos outros.
Não me importa qual o seu adiantamento nos estudos, ainda não está em lugar algum. Nós nos impressionamos muito com as pessoas que têm rótulos impressionantes. Acreditamos que um diploma de médico ou de Doutor em Filosofia nos torna sábios.
Pois vou-lhes dizer uma coisa: Alguma das pessoas mais burras que conheço têm diplomas de Doutor em Filosofia! E algumas das pessoas mais sábias que conheço nem sequer sabem o que é um diploma de Doutor em Filosofia!
Lembrem-se de que o seu conhecimento pode estorvá-los se acreditarem que o que sabem é a realidade e portanto vocês estão filtrando todas as coisas que estão entrando.
Com esse tipo de estática vocês nunca vão crescer, nunca vão mudar. Conheço pessoas que continuam a dar os cursos que davam há 20 anos, exatamente do mesmo modo.
Já vi professores que ensinaram a turmas da quarta série durante nove anos. Cada vez que chega a hora de ensinarem, digamos, a Marcha para Oeste - isso é muito importante - eles vão ao arquivo, abrem uma gaveta e puxam a ficha da Marcha para o Oeste, velha e estragada, e a gente vê que eles ensinam aquilo há nove anos porque nas ilustrações há nove buracos de alfinetes.
O conhecimento não é sabedoria! A aprendizagem só em si não é sabedoria. A sabedoria é a aplicação do conhecimento e dos fatos. A sabedoria é se dar conta de que você não sabe nada. A sabedoria é dizer: "Minha mente está aberta. Onde quer que eu esteja, estou apenas começando. Há cem vezes mais coisas a perceber do que o que conheço". Isso é o princípio da sabedoria.
Certamente não somos o nosso conhecimento. Muitas vezes consideramos, em nossa cultura, que a alegria constante é especial.
Não conheço nenhuma outra cultura tão dedicada ao prazer. Nós nos perdemos na busca contínua do prazer, tanto que nos esquecemos de que existem outras coisas. No minuto em que sentimos que estamos ligeiramente infelizes, tomamos um comprimido ou alguma bebida que dê prazer. Quem quer sofrer? Somos uma cultura que detesta o sofrimento e tem medo dele. Ora, não estou dizendo, pelo amor de Deus, "vamos curtir um sofrimento". Não me interpretem mal! Prefiro mil vezes ensinar e aprender com alegria. A alegria é uma grande mestra. Mas o desespero também. O assombro é um grande mestre, mas a confusão também! A esperança é uma grande mestra, mas a desilusão também! E a vida é uma grande mestra, mas a morte também. Negar-se algum desses qualquer aspecto - é não experimentar a vida em sua plenitude.
 

Do maravilhoso livro: Vivendo, amando e aprendendo, de Leo E. Buscaglia
 

 

 

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