Frigidez e impotência - causas psíquicas
A pessoa que, por medo de perder o
controlo, se exercita continuamente na arte do autodomínio, terá grandes
dificuldades em renunciar ao controlo do Eu no campo da sexualidade apenas e em
deixar livre curso aos acontecimentos. No momento do orgasmo esse pequeno Eu do
qual tanto nos orgulhamos desaparece. No momento do orgasmo o Eu morre
(...infelizmente, apenas por brevíssimos instantes, senão a iluminação
atingir-se--ia com a maior das facilidades!) Mas se nos agarrarmos ao Eu
bloqueamos o orgasmo. Quanto mais o Eu procura forçar o orgasmo, mais este lhe
escapa. Ainda que sobejamente conhecida, esta lei é frequentemente esquecida.
Enquanto o Eu desejar alguma coisa será impossível alcançá-la. Em última
instância o desejo converte-se no seu oposto: desejar dormir conduz à insónia,
desejar potência resulta em impotência. Enquanto ansiarmos pela iluminação, não
a atingiremos! O orgasmo é a renúncia do Eu - só assim se consegue a
«unificação», porque enquanto perdurar um Eu os «outros» também persistirão e
viveremos em dualidade. Se quiserem viver o orgasmo, tanto o homem como a mulher
terão de se descontrair e deixar que as coisas sigam o seu curso. No entanto,
para que haja harmonia na relação sexual, tanto um como o outro terão de cumprir
outros requisitos específicos do seu próprio sexo, para além deste requisito
comum.
Já nos debruçámos demoradamente sobre a capacidade de entrega como sendo um
princípio da feminilidade. A frigidez não indica que uma mulher não deseja
entregar-se plenamente mas antes que ela quer desempenhar o papel do homem. Não
deseja sujeitar-se, não pretende ficar debaixo do homem e quer, antes de mais,
dominar. Tais ânsias de poder e de domínio são expressão do princípio masculino
e impedem a mulher de se identificar plenamente com o princípio feminino. É
claro que tais perturbações acabam por afectar um processo polar tão sensível
como o
da sexualidade. O facto de a mulher que se revela frígida com o parceiro
conseguir atingir o orgasmo através do onanismo vem confirmar esta observação. O
problema do domínio e da entrega desaparece no acto de masturbação: a mulher
sente-se a sós e não tem de acolher ninguém, apenas as suas próprias fantasias.
Um Eu que não se sente ameaçado por um Tu retira-se de bom grado. Na frigidez
espelham-se também os receios da mulher perante os seus próprios instintos,
quando na sociedade a que pertence os olhares recaem pesadamente sobre mulheres
fáceis, putas, etc. A mulher frígida não quer deixar nada entrar nem sair,
apenas quer manter-se fria e distante.
O princípio masculino consiste em fazer, em criar e em realizar. O homem (Yang)
é activo e, portanto, agressivo. A potência sexual é expressão e símbolo de
poder - a impotência, sinal de debilidade. Por detrás da impotência esconde-se o
temor da masculinidade e da agressividade próprias. Há medo em ter de demonstrar
a sua hombridade. A impotência é também expressão do temor da feminilidade em si
próprio. O feminino é encarado como uma ameaça que deseja engolir-nos. O
feminino manifesta-se aqui sob o aspecto da velha - ou bruxa - que come
criancinhas. Ninguém quer ir até à «gruta da bruxa». Também aqui se torna
manifesta a escassa identificação que existe com a masculinidade, logo, com os
atributos do poder e da agressividade. O impotente identifica-se sobremaneira
com o pólo passivo e com o papel de subordinado. Teme a acção. E caímos, uma vez
mais, no círculo vicioso de procurar chegar à potência através da vontade e do
esforço - quanto maior for a pressão, mais inalcançável resultará a erecção. A
impotência deveria ser o escape para se averiguar a atitude pessoal de cada um
face à temática do poder, da força e da agressividade e perante as fobias que
lhes estão relacionadas.
Ao examinar os problemas da sexualidade em geral, há que não esquecer que na
alma do Ser Humano existe um aspecto feminino e um aspecto masculino e que, em
definitivo, cada qual, homem ou mulher, deverá desenvolver na totalidade ambos
os aspectos. Este caminho espinhoso começa, porém, pela identifi-
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cação total com a própria sexualidade corporal de cada um. Uma vez assumido esse
pólo, será então possível despertar e integrar de modo consciente a parte da
alma correspondente ao outro pólo, através do encontro com o sexo oposto.
Trecho do livro A Doença Como Caminho, de Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke
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