Corrigindo os fluxos da memória

 

Quanto mais produzimos experiências que envolvam emoções, mais elas serão registradas privilegiadamente e mais ficarão disponíveis para serem lidas e para participar das reações, pensamentos, sentimentos, maneira de ser, visão de vida que temos no presente e que teremos no futuro.
A qualidade das experiências que tivemos na infância determina as características que teremos quando adultos, tais como descontração, segurança, sensibilidade, ansiedade. Podemos não ter consciência de nossas misérias do passado, mas elas infectam o nosso presente. Também podemos não ter consciência dos prazeres que tivemos, mas eles irrigam nossa capacidade de ser e de pensar.
Se tivemos uma infância regada com alegria, brincadeiras, criatividade e com alto grau de socialização, certamente temos grandes possi-bilidades de ter uma personalidade tranqüila, que contempla o belo e que aprecia o convívio social. Se, ao contrário, tivemos uma infância saturada com experiências punitivas, sem afetividade, desprovida de apoio, carente de elogios e restrita de amigos, então, temos grandes possibilidades de ter uma personalidade rígida, pouco sociável, insatisfeita, com baixa auto-estima e com humor basal triste.
Se um jovem usa continuamente drogas alucinantes, estimulantes e depressoras do cérebro, é de se esperar que o fenômeno RAM retroalimente o efeito da droga no inconsciente, produzindo um rombo na liberdade de pensar e de sentir.
De modo semelhante, uma pequena taquicardia com sensação de desmaio, ocorrida num elevador, se for retroalimentada pelo fenômeno RAM, pode transformar-se numa claustrofobia. Uma ofensa em público, se for retroalimentada, pode gerar um bloqueio social. Um medo súbito de que se vai morrer ou desmaiar num determinado momento, se for retroalimentado, pode se transformar em síndrome do pânico.
Estes mecanismos psicológicos são universais e, portanto, estão de diferentes maneiras presentes na gênese de grande parte das doenças psíquicas. No caso das fobias, que representam uma aversão irracional, e no caso da dependência de drogas, que representam uma atração irracional, os mecanismos de formação são tão semelhantes que podemos dizer que elas são pólos opostos da mesma moeda.
Se ficarmos gravitando em torno dos nossos fracassos, continuaremos sendo fracassados. Se gravitarmos em torno de nossas frustrações, derrotas e faltas, continuaremos frustrados, angustiados, insatisfeitos e, o que é pior, não mudaremos os pilares de nossas vidas.
Todos temos de saber que, dependendo de como reatroalimentamos nossas experiências, cavamos nossas próprias sepulturas. Se cuidamos da higiene bucal, por que não cuidamos dos pensamentos que são produzidos e registrados nos palcos de nossas mentes? Limpamos as sujeiras do mundo físico, mas não as sujeiras da alma. Se quisermos ser pessoas doentes, o melhor caminho é não intervir nos pensamentos negativos e nas angústias que produzimos no secreto de nossos seres. Contudo, se desejamos ser livres, precisamos aprender a trabalhar nossos pensamentos, superar nossas dores e proteger nossas emoções diante das turbulências da vida.
Devemos estar claros de que os pensamentos e as emoções do presente não são importantes apenas no momento em que estão agindo no presente, mas são importantes porque serão os alicerces do que seremos no futuro. O estresse de hoje, ainda que passe amanhã, poderá ser usado como material para confeccionar o estresse de depois de amanhã.

 

Trecho do Livro A pior prisão do mundo, de Augusto Cury

 

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