A coragem de mudar
 

Às vezes, quem sabe parar, mudar, desistir, repensar e adotar um novo ponto de vista tem tanto talento - e tanto valor quanto quem é um grande realizador.
Muita gente não tem coragem de abandonar seu emprego e partir para outro negócio - e fica infeliz onde está pelo resto de sua vida. É o caso da pessoa que acaba passando 20 anos na mesma empresa fazendo o que não gosta - quando podia ter tido muito mais sucesso em qualquer outro negócio.
Todo grande empresário precisa ser um grande realizador - mas, para realizar bem, precisa gostar do que faz. E não é sempre que se pode acertar a profissão ideal.
Um amigo meu, casado, costumava comentar que me admirava muito. 'Enquanto eu continuo infeliz no meu casamento de 25 anos', ele dizia, 'você já casou quatro vezes, está sempre renovando, sempre feliz...' Minha resposta era sempre a mesma: 'É porque você não gosta de casamento, eu gosto. Você só faz mais vezes aquilo que gosta!'
No mundo dos negócios é igual. Geralmente as pessoas ficam com medo ou acomodadas ou receosas em ter de dar tanta satisfação para conseguirem tomar uma decisão simples. Para desistir de um casamento, você tem de dar satisfação à família, à sociedade, à igreja, aos filhos. Para desistir de uma carreira, você tem de dar satisfação aos colegas, aos amigos, aos chefes, às pessoas que estavam acostumadas à sua imagem ligada a determinada empresa eventualmente até a credores. Mas quando se trata da sua felicidade pessoal, a única pessoa a quem você deve qualquer satisfação é você mesmo. E a felicidade pessoal de toda pessoa passa pelo trabalho.
Eu sempre valorizei muito a estabilidade: quem diz 'eu sou ex-isso, ex-aquilo, ex-aquilo outro...' nunca vai ser ninguém. Mas não pode existir estabilidade sem alguma alegria ou pelo que se está fazendo ou pelo ambiente no qual se está trabalhando.
É muito comum ver publicitário reclamando da sua profissão. Ou porque o cliente não entende suas idéias, ou o atendimento pede tudo em cima da hora, ou a campanha não saiu como era ideal - tudo é motivo de problema, de queixa, de insatisfação. Toda pessoa tem o sagrado direito de não gostar do que faz - só não tem o direito de continuar a fazer o que não gosta.
Minha disposição de enfrentar um negócio novo e me dedicar inteiramente para ver até onde esse novo negócio poderia crescer provavelmente seja fruto dessa minha convicção de que não existe trabalho bem-feito sem paixão.
Quando sentir que não contribuo mais, que não sou mais útil a qualquer negócio, tenho certeza de que vou ter de novo a coragem de reconhecer minha disponibilidade - e ir embora.
Todo empresário precisa ter a visão e a lucidez de saber se enxergar em seu mercado - e a coragem de abandonar tudo, quando for preciso. Uma das lições mais difíceis e mais necessárias que se tem de aprender é como se tornar gradualmente desnecessário.
Quando escolhi o Silvio Matos como meu sócio na Young & Rubicam, estava decidido a fazer dele o maior empresário da publicidade brasileira. Era essa experiência que me interessava passar para o Silvio.
Como sempre, foi uma escolha mútua: eu escolhi o Silvio para essa posição invejável e ele também, com todas as propostas que tinha, escolheu o nosso grupo. Todo empresário - e, no nosso negócio, todo criador - está sempre cercado de opções e alternativas. Existe um mundo de oportunidades que se abrem, dia a dia, para todo bom profissional. Mas um bom profissional é melhor ainda quando sabe fazer a escolha certa.
Assim, o mundo dos negócios é feito de dois tipos de decisões: a de saber em que momento se deve aceitar alguma proposta e em que momento se deve desistir.
Quando decidi me separar do Eduardo Fischer na Fischer Justus e recomeçar tudo outra vez em 1998, o que me impulsionava era basicamente o fato de que eu ganhava dinheiro mas não era feliz. Estava em uma sociedade com alguém que pensava de uma forma muito diferente da minha e que conduzia os negócios de um modo que nunca foi o meu. Certo ou errado, sua forma de tomar decisões, de pensar e de administrar tinha um estilo; um estilo muito diferente do meu.
Por isso resolvi agir - e lembro até hoje da última frase do Eduardo Fischer depois de meses de negociações terríveis e desgastantes. 'Agora que vamos competir no mercado, eu vou te destruir', ele disse. O tempo se incumbiu de dar a resposta.
Como na vida pessoal, a decisão de continuar ou não um casamento, uma relação ou uma amizade é sempre muito complexa, na vida profissional a decisão de aceitar ou não uma proposta, comprar ou não mais mercado, associar-se ou não a algum grupo e terminar ou não uma sociedade também deve ser decisiva.
O bom empresário é aquele que usa sempre toda sua experiência para aprender a decidir cada vez com mais rapidez. E cada vez melhor.
Quando comecei na Newcomm, minha primeira medida foi fazer um grande workshop com todas as pessoas que trabalhavam conosco para definir qual o objetivo de todos, não só o meu.
Eu fazia questão de ouvir as pessoas, conhecer suas aspirações, descobrir o que queriam - para que, em seguida, com uma assessoria de fora, nós passássemos a colocar em prática o que era o ideal de todos. E para que esse ideal se tornasse realidade da melhor forma possível.
O resultado desse workshop foi que as duas maiores ambições de todo mundo eram, pela ordem, ser feliz e ganhar dinheiro. Uma fórmula que só os mais inocentes podem considerar como uma redundância.
Sempre repeti que dinheiro não traz felicidade - mas certamente felicidade ajuda a trazer dinheiro.
O importante é realmente atentar para o fato de que o dinheiro era sempre mencionado após o desejo de felicidade. Todo mundo sabe como dinheiro pode ajudar a conquistar a felicidade para certas pessoas, mas o curioso é que, no interior do negócio, a felicidade era sempre mencionada antes.
Como o sonho de felicidade pessoal era anterior até ao da estabilidade financeira, eu mesmo comecei contando a todos qual era o meu ideal de uma agência saudável, feliz e na qual trabalhar pudesse ser uma alegria.
Desde cedo, eu sabia que não tinha vindo ao mundo a passeio. E estabeleci meu plano de carreira - e minhas metas profissionais - tendo em mente que o que mais queria era fazer alguma diferença em tudo a que me dedicasse.
E, para isso, a paixão pelo trabalho - especialmente a paixão pelo trabalho bem-feito - sempre foi essencial. Mesmo no trabalho, as pessoas deviam buscar o que dá mais prazer. Sempre.
 

Do livro: Construindo uma Vida, de Roberto Justus


 

 

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