O Que os Deuses Gregos Sempre Souberam a Respeito de Criatividade
Não é incomum comparar-se a
criatividade com uma planta que brota da terra. Mais freqüente ainda é a imagem
da lampadinha, quase um ícone para ilustrar uma idéia. Idéias e inovações
brilham, são fáceis de serem percebidas. Mas como chegar a elas?
Há um lado que as pessoas e as organizações deveriam conhecer melhor que é, por
enquanto, o lado misterioso do processo criativo.
O Mundo Subterrâneo
Uma semente que brota vem de um Mundo Subterrâneo. Na mitologia grega este é o
Mundo de Hades, deus dos Mortos, do inconsciente, e de tudo o que se processa
dentro de nós de maneira nebulosa ou incerta.
Citando Ariana Stassinopoulos em seu livro The Gods of Greece, “Hades é o deus
que preside nossas descidas, investindo nas sombras, depressões, ansiedades,
reviravoltas e também em nossas dores, mas com o poder de trazer luz e
renovação”.
Podemos dizer, portanto, que o reino de Hades simboliza o inconsciente, tanto o
individual como o coletivo. Por isso, não é somente a dor e a depressão que
habitam o território de Hades. Se esse é o Mundo Subterrâneo de nossas mentes,
também é a moradia do pensamento, da memória, de nossos anseios e receios.
Imagino, portanto que é neste mundo que a incubação, a intuição e as sinapses
criativas acontecem antes de se tornarem visíveis. Afinal, Hades é também
conhecido como O Conselheiro, já que é a fonte da intuição e também como Plutão,
que significa riqueza, bens. É uma outra forma de percebermos o subterrâneo. Não
é lá que se concentram o húmus, as raízes e o petróleo?
O insight – a compreensão profunda de uma situação - ou o “a-há” de uma idéia
mostram-nos quase fisicamente esse pulo de dentro para fora de nossas mentes.
Mas o mundo de fora é completamente outro.
O Mundo da Luz
O Mundo da Luz, ou do Céu é o reino do brilho e do poder. É também o domínio de
Zeus,
deus supremo do Olimpo. A construção de seu reinado foi feita por meio de
conquistas, visão estratégica e alianças.
Psicologicamente, o domínio do céu representa o consciente, o raciocínio lógico,
a supremacia e a visão panorâmica.
Zeus, portanto, simboliza o sucesso e o controle. Pessoas que vivem esse
arquétipo são estrategistas, sabem administrar riscos e tendem a ser vitoriosos.
Zeus é freqüentemente ilustrado perto de uma águia, pela sua capacidade de
enxergar o todo, do alto, além de perceber e abocanhar rapidamente os detalhes
que lhe são importantes.
Assim são percebidas as idéias, as oportunidades e as inovações. Há um lado da
criatividade que brilha, mas que não existiria sem a matéria-prima que está no
subterrâneo.
Cegos de Tanta Luz
No mundo das organizações só se reconhece Zeus, onde o poder, a assertividade, o
marketing pessoal e o controle são altamente favorecidos. Qualquer comportamento
diferente desse arquétipo é visto com estranheza, ou pior, como característica
dos perdedores, dos lunáticos ou de alguém que não chegará a lugar algum.
No mundo de Zeus, tudo aquilo que não é visível não é digno de existir.
Entendemos bem os aspectos iluminados da Criatividade. Sabemos avaliar uma boa
idéia – pois ela passa a ter lógica. Valorizamos a persuasão e a força de
vontade que a implementação de uma idéia demanda. Adoramos ser valorizados por
nossa capacidade de criar, e, sobretudo, amamos a certeza.
Não é de se estranhar que nossa cultura identifique o mundo de Hades, por ser
incerto, como o inferno. Zeus adora o controle e, portanto, detesta tudo o que
não é absolutamente preto ou branco e mais ainda o imprevisto, o desconhecido.
O Trânsito entre os dois Mundos
Quero falar sobre Perséfone, também conhecida como a Guia do Mundo Inconsciente,
a deusa das estações do ano, dos ciclos e da renovação. Essa é a deusa que nos
ensina a transitar entre os dois mundos citados acima.
O seu grande poder é o domínio de quando e como visitar o inconsciente e como
retomar o controle. Perséfone sabe buscar a sabedoria que se encontra na mente
profunda e trazê-la à tona.
Pensemos, por exemplo, nos instrumentos de Geração de Idéias. O Brainstorming,
um dos mais conhecidos, inicia com um livre fluxo de idéias que não deve ser
interrompido. Nesta fase, o julgamento é eliminado e a quantidade de idéias para
permitir o livre fluxo do pensamento é estimulada. Posteriormente, as muitas
idéias resultantes são avaliadas.
O Pensamento Lateral convida a uma fuga temporária do pensamento lógico. Sua
prática consiste na passagem pelos caminhos do absurdo antes de voltar para a
trilha habitual. Devido a esses estágios, é possível obter-se idéias novas e
válidas.
Synetics, outra técnica, fala em “fazer o familiar ser estranho e o estranho
tornar-se familiar”. Trata-se, portanto de transportar-se de um problema,
produto ou situação para um outro universo, para posterior retorno.
O que esses instrumentos têm em comum? Todos alternam momentos de fuga do
pensamento tradicional com a volta à lógica e à avaliação racional.
Não seriam estes instrumentos formas seguras para fazermos pequenos mergulhos no
Mundo de Hades? Controlado, permitido e com hora marcada. Portanto aceito no
Mundo de Zeus.
A sábia Perséfone, como uma mãe que segura os braços de seu filho quando ele dá
seus primeiros passos, criou formas seguras para retirar sabedoria do
inconsciente.
As boas idéias das empresas que utilizam instrumentos como os citados são as
provas vivas de que funcionam e, as empresas e institutos especializados, não
param de estudar a respeito.
O pesquisador inglês Michael Kirton, por exemplo, prega a existência de uma
criatividade adaptadora ou incremental, (mais propícia às melhorias ou redução
de custos, ou seja, dentro dos paradigmas) e uma criatividade inovadora, que
quebra paradigmas e gera produtos e processos que realmente rompem com os
modelos anteriores
Com base nesses conceitos, O Center for Creative Leadership, nos EUA e o
Battelle’s Institute, na Alemanha, realizaram diferentes estudos sobre a
eficácia de alguns instrumentos de estímulo à criatividade e concluíram que os
mais aplicados e aceitos nas empresas são os adequados à criatividade
incremental e que, para a inovação, seria necessária a utilização de metáforas,
fantasias dirigidas e técnicas de meditação.
Eu diria, portanto, que pequenos mergulhos no Mundo de Hades trazem
contribuições incrementais e que mergulhos maiores podem trazer idéias realmente
inovadoras.
O Processo Criativo clama por sinapses, fantasias, associações, mas as
organizações estimulam e recompensam apenas o Pensamento Lógico e Linear.
Muitas boas idéias partem do “e se...”, da livre especulação pelo universo das
possibilidades, mas o paradigma organizacional quer nos prender à certeza dos
bons resultados desde o início do processo.
A incubação pode ser vista como preguiça, mas é um estágio do trabalho no qual o
processo criativo não está aparente.
Idéias espontâneas são desperdiçadas, pois não surgem no momento certo. Quem já
não teve boas idéias no banho ou dormindo? E quem já não as perdeu por não as
ter registrado naquele momento? A idéia genial não tem “hora marcada” para se
manifestar.
È difícil conviver com a desordem e a insegurança de não saber aonde vamos
chegar. Também é trabalhoso abandonar crenças e procedimentos que um dia nos
foram úteis. Entretanto, desordem e revisão são etapas importantes da inovação,
da mudança e da aprendizagem. Já diziam os gregos.
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