O pai-líder
Sergio Buaiz
Muito se fala em liderança, mas quem é o
verdadeiro líder? Como identificar um líder, no meio da multidão? Quem é os
líder da sua empresa, rede ou comunidade?
A resposta é: depende do que você chama de líder.
Se você considera “líder” quem alcança um grande destaque em sua área ou que
está na frente dos outros, é fácil. Você está falando do líder-estrela, aquele
que brilha no céu para todos verem. Essa pessoa é líder porque é determinado e
competente. Ela têm um valor inquestionável em sua profissão, mas nem sempre
entende da arte de liderar.
Por outro lado, se você se refere a “líder” como sendo uma pessoa capaz de
extrair o máximo potencial de seus colaboradores, mobilizar, desenvolver
talentos e liderar equipes vitoriosas, não olhe para o céu. O pai-líder se
reserva. Ele pode até brilhar mais que o Sol, mas já cansou de iluminar os
outros. Ele mantém seu brilho próprio controlado, sob o manto opaco da
humildade, pois sabe que o céu é para estrelas.
O pai-líder já foi estrela um dia, mas agora o seu papel é ensinar. Ajudar que
outras pessoas descubram esse poder interior e desenvolvam o melhor de si,
aprendendo a brilhar bem alto no céu. O pai-líder é um grande formador.
Na prática, todo líder-estrela é um filho-estrela, embora nem todos estejam
prontos para aceitar isso. Logo que aprende a brilhar, o filho-estrela ilumina o
cosmo. Sua luz é mais intensa que as demais estrelas. Durante uma fase, ele
renega o pai, pois acredita que sabe mais e pode ir além do que os seus
ensinamentos. É quando vira um líder-estrela, de brilho próprio e sem passado.
Ele sabe tudo, é melhor que os outros e experimenta o céu.
Por isso, quando o líder-estrela diz bobagens, o pai não liga. Ele sabe que é
sempre assim.
Um dia, quando a maturidade chega, o líder-estrela percebe que tanto brilho
cansa. Por mais que ele se esforce, novas estrelas dividem com ele o céu, e o
brilho individual já não faz diferença. É quando ele entende o seu papel. Ele
percebe que brilhar demais é bom, mas não traz a realização que sempre quis.
Vida de estrela é vazia de significado.
Então, ele se lembra do pai-líder e se arrepende do que fez. Ele volta a ser um
filho-estrela, pede perdão e novos conselhos ao pai.
Estamos falando em imposição e conquista, palavra e exemplo. Estamos falando em
humildade, centralizar ou delegar poderes. E estamos falando em individual e
coletivo.
Quem é o verdadeiro líder? Por que o filho-estrela volta e pede conselhos?
A FORMAÇÃO DE UM LÍDER
Após dez anos convivendo com treinadores de vendas em todo o Brasil, entendi que
a liderança é um aprendizado de várias fases. Ninguém é um bom pai sem ter
experimentado o estrelato algum dia. A real humildade do pai-líder só se adquire
após alguns tombos de quem já esteve no céu.
Entretanto, a magia que envolve todo esse processo está diretamente ligada à
forma como o pai se posiciona em relação ao filho. Ele sabe a hora de brilhar?
Ele deixa o filho experimentar o céu e viver seu próprio reinado enquanto jovem?
Quando o pai impõe seu brilho e centraliza demais o poder, impede que o filho
sinta o prazer de brilhar. E se o filho não ilumina todo o céu na hora certa, se
limita ou se rebela.
O filho que nunca sai da sombra, desenvolve as características de um satélite,
orbitando em volta do pai-líder pelo resto da vida. Ao invés de desenvolver a
própria luz, ele se acanha, tímido, amedrontado e dependente.
Por outro lado, o filho que se rebela, cria transtornos e chama a atenção de
qualquer jeito, descarregando suas frustrações no universo. Ao invés de
tornar-se uma estrela, vira um buraco negro, atraindo para si todo o lixo
cósmico.
Nos dois casos, não se forma uma estrela. O pai fracassa em sua missão de
perpetuar o brilho. Se o motivo é ego dominante ou excesso de zelo, não importa.
A superproteção constitui um crime, pois limita o filho e o impede de viver em
sua plenitude.
Um pai não tem o direito de reduzir a capacidade do próprio filho. Ser um bom
pai também é deixar que o filho erre e caia algumas vezes no caminho. Faz parte
do aprendizado.
A HORA CERTA DE BRILHAR
Existe o momento certo para o filho-estrela conquistar sua independência. Cedo
ou tarde demais não funciona. É o mesmo que deixar que o filho chegue aos trinta
anos sem nunca ter saído de casa.
Por isso, o verdadeiro pai-líder sabe a hora certa de se sair de cena, para que
o filho faça uma grande diferença na escuridão. Em algum momento da vida, ele
incentiva que o filho-estrela comece a brilhar por conta própria, porém mantém
os olhos bem atentos para acompanhar esse desenvolvimento.
O pai-líder aprende a controlar o próprio ciúme e insegurança, para ver o filho
começar. Se não faz isso, afasta o filho e perde o controle da situação.
O pai-líder orienta, dá o empurrão inicial e fica na torcida, até que o filho
produza a primeira faísca. Daí, qualquer clarão é motivo para o filho-estrela
acreditar que pode mudar o universo. E ele não poupa esforços para expandir sua
luz, indefinidamente.
Um verdadeiro pai-líder é o oposto do centralizador. Ele incentiva e coloca os
filhos em evidência, para que desenvolvam o seu melhor.
O pai-líder está sempre ao lado do filho durante a sua estréia. Sua postura não
é de cobrança, mas de incentivo. O filho-estrela sente mais confiança se é
abraçado antes de entrar em cena. É um momento especial em sua vida. É papel do
pai estar lá, junto, torcendo e apoiando em qualquer circunstância.
Se algo dá errado, o pai-líder assume o comando. Entretanto, quando isso
acontece, ele não deixa que isso afete a auto-estima do seu filho. Ele faz a
nova estrela acreditar que qualquer experiência é válida e que está orgulhoso de
sua coragem. O pai-líder conta que é comum errar no início e enfatiza a prática
como a solução de todos os problemas.
O papel do pai é aplaudir sempre, para motivar o filho a ensaiar sua luz. Quando
as coisas não saem conforme o esperado, as críticas são sempre construtivas e um
grande valor é associado à experiência.
Se está preocupado e sente um aperto no coração durante a estréia do filho, o
pai-líder não demonstra. É preciso incentivar e deixar o filho confiante, para
que faça o seu melhor.
Ao delegar responsabilidades, o pai-líder comemora os resultados sempre, mesmo
quando são ruins. O que importa é a confiança, a prática e o aprendizado, pois
os resultados esperados virão na hora certa, se o filho-estrela não desanimar.
O pai-líder não tem pressa. Ele repete as instruções quantas vezes necessário,
sem demonstrar impaciência. Essa atenção é tudo o que o filho precisa para se
desenvolver.
Dentro da sua equipe, é a mesma coisa. Para liderar de verdade, é preciso sair
do foco. Não importa se os outros erram, se estiverem se empenhando e
aprendendo. Delegar responsabilidades é um processo que leva algum tempo. Há um
estágio de preparação em que o erro é tão importante quanto o acerto.
QUANDO SE FORMA UMA ESTRELA?
Um pai-líder prepara uma nova estrela desde o primeiro instante da gestação. Não
importa está ou não pronto para brilhar: já é filho. A primeira impressão é a
que fica. Se o pai-líder não tem a postura correta no início, nunca mais a
relação será a mesma. A formação de uma estrela se faz nos detalhes do
cotidiano.
O pai-líder irradia energia positiva. Ele nutre o solo e rega as sementes, para
incentivar e orientar o aprendizado do filho. Nessa fase, o seu papel principal
é conversar muito e contar histórias inspiradoras. É a melhor forma de ensinar e
mantê-lo por perto, evitando que busque atalhos e desanime diante das
adversidades.
O pai-líder é duro quando necessário e não aceita desculpas. Ele sabe dizer
“não” na hora certa e não negocia valores. Atender todos os caprichos do filho
não é amar. O pai-líder estabelece limites para que o filho siga no caminho
certo até a fase em que aprende a brilhar. Ele oferece conhecimento e incentivos
para o filho descobrir sua vocação e ensaiar a própria luz. Essa é a função do
pai-líder.
A postura de pai-líder também significa comprometer-se com uma nova vida. É
deixar de ser estrela quando se torna pai. A prioridade muda.
O pai-líder assume para si todas as responsabilidades e prepara-se para servir
de pára-raios. É melhor que seu filho venha contar a ele seus problemas do que
para os outros. É seu papel de pai absorver os impactos e traduzir o negativo em
positivo.
A partir do momento em que inicia a formação de uma nova estrela, o pai-líder
tem o compromisso de apoiá-la e incentivá-la a ser melhor que ele próprio. Ele
investe o melhor do seu tempo durante o treinamento do seu filho e sente um
grande orgulho quando este começa a brilhar. Além de garantir a evolução da
espécie, ele se realiza.
Por isso, não pode haver concorrência na mesma linhagem. Avô, pai, filho e neto
cooperam entre si e protegem um patrimônio comum, que é a carga genética da
família.
O pai-líder é positivo, divertido e contagia os outros. Todos querem estar com
pessoas prósperas, entusiasmadas e vencedoras.
Para crescer com solidez, o pai-líder elimina toda e qualquer forma de
preconceitos. Ele têm filhos diferentes entre si. Para liderar um grupo
heterogêneo, é preciso valorizar a diversidade e respeitar as características de
cada um.
O pai-líder potencializa o que o outro tem de bom, ao invés de reclamar. Alguns
valores são inegociáveis. Portanto, o pai-líder aprende a aceitá-los sem
misturar as coisas. Da mesma maneira, evita impor ao outro as suas crenças
religiosas, políticas e culturais, para não causar constrangimento em quem
compartilha de valores diferentes. O pai-líder é sociável.
Se nota que alguém tem deficiências na hora de exercer alguma função importante
no negócio, o pai-líder ensina. Todos estão em constante evolução e aprendem ao
longo do tempo, mas não existe perfeição. O pai-líder olha-se no espelho antes
de julgar o outro.
A disputa entre filhos adolescentes é muito comum, pela conquista de território
e a atenção dos pais. Por isso, o pai-líder aprende a administrar esses pequenos
conflitos desde cedo, mantendo-se neutro. Se vai repreender um deles, o faz
genericamente, repreendendo os dois. Isso é importante para manter a paz a longo
prazo.
O pai-líder valoriza a ética, o respeito e amizade entre os filhos, criando um
ambiente socialmente agradável e próspero. Quanto maior é a integração da sua
família, mais motivada e comprometida ela está.
O pai-líder é, antes de tudo, um grande exemplo de atitude. Ele honra essa
condição de destaque, pois os filhos estão copiando o que ele faz. Ele deixa de
pensar individualmente e começa a se preocupar com a família que criou.
O pai-líder pensa coletivamente e compreende a responsabilidade que tem.
Sergio Buaiz
é publicitário, escritor, consultor e conferencista. Autor do livro "Marketing
de Rede - A Fórmula da Liderança", é membro do Conselho Editorial da Revista
VENCER!, Embaixador da Universidade do Sucesso e Diretor de Projetos da
Comunidade BeFriends. Visite seu site pessoal:
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