A Grande Obra

Há quase duas décadas, estudando as mais diversas correntes de pensamento, em busca de um melhor conhecimento de minha personalidade, pude constatar que quanto mais aprendemos, mais confusos podemos nos tornar. É muito difícil chegar a uma conclusão acerca da verdade.

No que diz respeito a uma análise pessoal acerca da Grande Obra, entendo que a mesma simboliza o poder imenso da vontade firme do homem. Creio que o poder de co-criar à maneira de Deus é tão real quanto o ar que respiramos. Ele está em todo lugar e pode ser utilizado por qualquer ser humano. Difícil é dominar esse poder com maestria.
Ele tem sido utilizado com êxito, de forma involuntária, por muitas pessoas que nunca tiveram nenhum conhecimento específico. São aquelas que têm, geralmente, uma auto-estima muito forte e que crêem na realização de seus atos. E, de acordo com a sua crença, o Universo trabalha. Há ainda aqueles que aprenderam a dominar e utilizar esse poder para a maldade e para o domínio das massas. Muitos tiranos, que aplicaram esse poder, conseguiram hipnotizar as massas a seguirem os seus ideais. Hitler é um exemplo recente disso. Esses tiranos sempre encontraram respostas aos seus delírios, justamente, pelo fato de que o povo não tem uma boa instrução a respeito de uma correta aplicação das leis universais e seguem a primeira idéia que lhe incutem através dos meios de domínio. Atualmente, essa força é aplicada às massas através dos meios de comunicação, mediante a propaganda repetitiva.

O Grande Mestre Eliphas Levi recomenda cuidado, sabedoria e senso de justiça na utilização dos segredos da Grande Obra. A análise dos seus livros parece dar ênfase à idéia de que refletimos, como um espelho, aquilo que cultivamos em nossa psique, deixando claro que as mudanças condicionadas através de práticas, descritas em muitos tratados herméticos ou religiosos, são perigosas, porque não se leva em conta os hábitos arraigados em nossa alma desde a concepção. Levi recomenda que, para magnetizar, o homem necessita, primeiramente, adquirir sabedoria e justiça. Só então, pode trabalhar em sintonia com as leis universais, co-criando o mundo de acordo com a Lei Maior.
Estudando autoconhecimento, magia, alquimia, segredos do Grande Arcano, muitas dúvidas me perseguem, enquanto que, por outro lado, encontrei muitas respostas. Acredito que o segredo da Grande Obra consiste em aprender a cultivar, adequadamente, a centelha divina que trago dentro de mim, cujo domínio me tornará capaz de refletir, aqui na terra, uma pequena fração do poder e da glória do Grande Arquiteto do Universo. Já descobri que é possível transformar minha personalidade para melhor, mediante o desenvolvimento de minha espiritualidade. E que, mudando a personalidade para melhor, tudo à minha volta se torna também melhor. Exatamente como os velhos sábios ensinaram em escritos antigos. Diziam ter descoberto a pedra filosofal com a qual seria possível transformar qualquer metal em ouro. Hoje percebo que estavam falando a verdade. Referiam-se a si próprios porque, quando se lapida a alma com todo labor e persistência, eliminam-se as escórias de nossa personalidade, representadas simbolicamente pelos metais inferiores e surge lapidado o ouro espiritual ou a pedra filosofal dos antigos alquimistas. Ou, ainda, a pedra angular descrita na Bíblia, já que significam a mesma coisa.
Todas as correntes herméticas expressam, de modo mais ou menos complexo, as variantes da natureza humana exterior e interior, assim como o fazem os filósofos e os estudiosos da psique. Conquistar a sabedoria e o equilíbrio físico-psíquico consiste no que os antigos alquimistas denominavam: realização da Grande Obra que, em termos atuais, seria nada mais que controlar com sabedoria, os segredos capazes de transmutar fatores negativos de nossa vida em positivos. E, dessa forma, alcançar um equilíbrio interior que se reflete exteriormente como um espelho, tornando visível, ao mundo dos fenômenos, a Luz que encontramos nos recônditos do nosso próprio ser. Trata-se aqui da relação intrínseca, entre os mundos interno e externo, tão visivelmente delineada no texto da Tábua de Esmeralda.
Há, entretanto, uma notável diferença entre os estudiosos da psique e os hermetistas no tocante às relações entre o mundo interior e interior. Segundo a antiga ou a moderna psicologia, o mundo da psique exerce influência em nosso mundo sob a forma de reflexos condicionados, capazes de estimular os processos criativos em sua forma positiva ou causar perturbações emocionais, transtornos ou doenças psicossomáticas em seu aspecto negativo. Nada, além disso. Já para os hermetistas, tudo o que experimentamos em nosso “mundo dos fenômenos” teve sua origem no mundo da psique ou mundo astral, como preferem chamar. Assim, modificando-se o nosso mundo interior ou remodelando-o de uma forma sistemática, podemos modificar o mundo à nossa volta que nada mais é do que um espelho, sempre refletindo exatamente aquilo que acalentamos intimamente. Entretanto, o estudioso deve perceber que essa idéia de que refletimos aquilo que cultivamos em nossa psique, deixa claro que as mudanças condicionadas através de práticas descritas em muitos tratados herméticos ou religiosos, são perigosas porque não se leva em conta os hábitos arraigados em nossa alma desde a concepção. As diferentes condições físicas, ambientais e, principalmente, as concepções religiosas e culturais de cada um são fatores difíceis de serem transmutados através de simples fórmulas, da noite para o dia. Assim, exercícios de mentalismo, orações, rituais, palavras de passe, mantras, não serão suficientes para apagar tendências psíquicas de toda uma vida, da noite para o dia. É por isso que o estudante deve trabalhar, arduamente, a pedra bruta de sua psique adquirida do inconsciente coletivo. E, se for persistente poderá, talvez com o decorrer dos anos trabalhando em seu laboratório interior ver, ao final, como resultado, a sua pedra polida e lapidada - objetivo final do labor alquímico – ou a Grande Obra.
É inegável que muitos “alquimistas” levaram a cabo inúmeras experiências, visando a elaboração da pedra filosofal (que, segundo consta, seria capaz de transformar metais mais vulgares em ouro) ou do elixir da longa vida em sua forma vulgar, cuja finalidade seria prolongar infinitamente a vida do seu possuidor. Segundo tratados alquímicos, através de uma série de processos de cocção, filtragem, volatilização, aliados a outros procedimentos complexos, seria possível elaborar tais produtos capazes de transformar metais inferiores em ouro. Acreditamos que essa busca pelo processo de transmutação vulgar fora, realmente, praticada por muitos séculos por grandes seres que se diziam alquimistas. Mas cremos que a busca da realização da Grande Obra por essa via não deu em nada.
Muitos "alquimistas" labutaram a vida toda em busca do ouro dos tolos, arruinaram suas vidas em experiências perigosas, lidando com produtos químicos e metais pesados, envenenando-se e provocando incêndios em seus laboratórios. Isso porque interpretavam literalmente os sinais criptografados pelos grandes e verdadeiros Alquimistas e, movidos pela ganância louca de ficarem ricos facilmente, agiam segundo sua interpretação mesquinha e pequena acerca das grandes verdades espirituais da Alquimia. E, assim, cada geração seguinte de "sopradores", acrescentava novos sinais enigmáticos, bem como muitas falsas pistas que embaralhavam tudo para melhor fascinar os espíritos febris, querendo demonstrar-se sábios e descobridores da Grande Obra aos demais. Daí surgiram tratados confusos que, compilados juntamente com as obras sérias, formam um conjunto confuso de textos enigmáticos que contém grandes verdades e muitas mentiras. Por isso, recomendamos muito cuidado ao iniciante que resolve estudar Alquimia. É preciso muito discernimento para poder separar com maestria, o joio do trigo.
Para ajudar a todo aquele que resolve estudar apenas o lado bom e produtivo da Arte, analisaremos aqui apenas o conceito de alquimia espiritual. O processo de purificação da alma mediante o domínio dos vícios e a elevação das virtudes. Com base nestes pressupostos, após longos anos de estudo e dedicação, podemos chegar à conclusão de que os mais sábios Alquimistas, realmente, descobriram a Pedra Filosofal e realizaram a Grande Obra, através da prática da Alquimia da Alma. Através de uma introspecção contínua, aos recônditos de si mesmos, buscavam aperfeiçoar seu próprio ser, atenuando os defeitos e acentuando suas virtudes. Assim aperfeiçoando-se através de um labor contínuo, os verdadeiros alquimistas transformaram todas as escórias de suas almas (representadas pelos metais inferiores) em ouro (metal considerado perfeito pelos antigos). É notório que os verdadeiros alquimistas não só descobriram e utilizaram-se destes segredos, como também os conservavam velados, para serem preservados daqueles que eles consideravam despreparados para concebê-los. Assim, para ser conservado e divulgado, utilizaram-se da crendice natural dos povos de seu tempo, preservando através de signos e mitos. Dessa forma os segredos alquímicos atravessaram gerações, oculto pelo mais rigoroso sigilo, sendo divulgados apenas entre os chamados “iniciados”, através de práticas místicas, denominadas Mistérios, sempre representados sob a figura de deuses, monstros ou mitos. Felizmente estamos em uma época da evolução em que tais mistérios podem ser divulgados de forma mais clara. Mesmo assim permanecem como "Mistérios" para os despreparados para concebê-los, já que somente com a razão torna-se impossível desvendar as Leis Universais em sua essência mais profunda. As grandes verdades espirituais são simples, porém incompreensíveis ao senso comum. Somente através da espiritualização da matéria é que o homem pode subir ao alto e lá, decifrar segredos indizíveis que o tornam apto a caminhar pelo vale da morte, sem medo. Essa é uma verdadeira batalha entre as forças contrárias tão bem dramatizadas no fantástico simbolismo da Alquimia.
O Alquimista verdadeiro é todo aquele que trabalha arduamente o seu próprio ser, desenvolvendo o autoconhecimento e, por conseguinte: a espiritualidade. E, agindo assim, em certa fase da operação, no laboratório de sua própria alma, ocorre a tal almejada revelação interior por meio da qual a Providência Divina se comunica com todos aqueles que a buscam com firmeza de propósitos.
Eureka! - Grita o Alquimista - o Segredo Maior da Alquimia me fora revelado pelo meu próprio ser. Eu sou a Pedra Filosofal. Posso ser um operário de valor para a concretização da Grande Obra da Criação
Muitos dos antigos alquimistas demoraram décadas de trabalho operativo em seus laboratórios para chegarem a esse “insigth”. A partir dessa descoberta magnífica, iniciavam uma segunda fase: a operação alquímica sutil. Os processos alquímicos passaram da prática grotesca e material, para uma forma internalizada de ação, onde o laboratório, o “athanor”, os princípios elementares e o alquimista converteram-se em uma só coisa. Nessa fase, tomavam consciência de que eles mesmos seriam uma representação abstrata da pedra a ser lapidada para que o seus trabalhos fossem finalizados com êxito.
Conclusão:
O homem é a verdadeira Pedra Filosofal dos Alquimistas. A Grande Obra, vista em caráter individual (microcosmo), seria a realização do plano divino de evolução, progresso, expansão e crescimento em nossa vida pessoal. Deus cria, a Natureza multiplica e a Arte reproduz. Somos co-criadores da Grande Obra Universal da criação, quando trabalhamos em harmonia com os preceitos e leis universais, através das práticas dos segredos da Arte Real.
Esse é o segredo supremo revelado aos quatro ventos por todos os grandes mestres espirituais. É visível como o sol e secreto como Deus o é. Olhe para o sol e ficará cego se não estiver munido de um aparato apropriado. Da mesma forma, o segredo oculto cega àqueles que não estão aptos a reconhecê-lo. E, tal aptidão só pode ser atingida através da elevação do ser à verdadeira categoria de Alquimista. Somente através da supressão dos vícios e da elevação das virtudes pode-se atingir tal título, diante dos Seres da Luz.
O que queremos explicitar aqui é que o laboratório alquímico verdadeiro, com tudo o que ele possui, nada mais é do que uma representação metafórica do próprio ser humano onde, com metodologia apropriada são depuradas todas as experiências e vicissitudes da vida, concretizando na elaboração daquilo que os alquimistas chamam, com razão: a realização da Grande Obra. Isso demonstra que o homem tem o poder e o dever de auxiliar, a nível pessoal, na concretização da Grande Obra universal de criação e evolução proposta pelo Criador.

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Este texto foi escrito por Francisco Ferreira (Mr. Smith).

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Para saber mais sobre o assunto, leia:

A Pedra Filosofal

A Alquimia do Universo

A Fonte da Juventude

A Existência da Pedra Filosofal

O Poder Divino do Homem

O Único Poder

O Segredo dos Milagres

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