A expectativa e a cura
Se há um acesso da mente para o
corpo capaz de fazê-lo adoecer, precisa haver uma influência somática no
psiquismo. Ou não faria sentido, se isso não existir toda a lógica de
influências recíprocas está desafiada.
Se pensarmos no quanto as pessoas podem estar conectadas pelos fios invisíveis
da mente, especialmente quando há entre elas uma forte vinculação afetiva, somos
obrigados a entender que a antiga sabedoria dos curadores está correta, e que é
preciso abordar mais que o paciente todo seu ambiente, seus relacionamentos e as
fantasias que transitam por aí.
O passo mais óbvio é não subestimar a toxicidade dos afetos, nem seu poder
reparador.
Tal como procuramos o pulso e os batimentos cardíacos, a respiração e a cor da
pele como sinais de vitalidade orgânica, o sorriso e as lágrimas são sinais do
subjetivo, que como os sinais físicos indicam um nível de vitalidade do sujeito.
Uma das piores coisas que se pode encontrar num paciente é uma nível mantido de
tensão e apatia. Esses são péssimos sinais. Mesmo assim é preciso avaliar a
capacidade de resposta a um estímulo positivo. Se você estimula e ele responde,
a subjetividade está viva e capaz de recuperar energia.
Algumas vezes é muito difícil encontrar este ponto de estímulo. Em geral
precisamos usar medicamentos psicoativos nestes casos, pois não há como esperar
uma resposta interna em intensidade e tempo hábeis, ou porque o nível de
vitalidade está muito comprometido, ou porque o nível de tensão é excessivo para
que se possa estabelecer um contato com as partes mais saudáveis da
personalidade.
O quanto as fantasias são poderosas e, o quanto somos hábeis em movê-las no
sentido desejado com fim de cura, são questões relevantes para nós. Talvez
usemos pouco esse recurso terapêutico.
Ao falar em poder da fantasia e em sua mobilização como método de tratamento não
me refiro a ilusionismos, algo mais profundo deve ocorrer que simples repetições
de mensagens positivas. É necessário conhecer as crenças mais arraigadas no
paciente e as mais ativas no momento do adoecer e no curso da doença, entendendo
que interferências podem ter nestes processos.
Trata-se de uma forma de tratamento que utiliza simplesmente ( e tão
complexamente) a emoção. Desintoxicar emocionalmente e gradualmente substituir
crenças e sensações vigentes por outras mais agradáveis é restabelecer o pulso
da subjetividade organizadora do cosmos humano.
Entender o que se passa no corpo que possa afetar a saúde como um todo é mais
fácil, estamos lidando com o concreto, ao menos até uma boa parte da
investigação. É mais fácil ter respostas sobre a química corporal do que avaliar
a subjetividade, porquê demanda mais tempo de contato entre o paciente e o
médico.
Essa é uma das razões porque não se usa muito essa via. Somos uma medicina que
tem alguma pressa e às vezes se torna superficial por conta dela. Outra razão, é
que avaliar a subjetividade do paciente requer uma elevada capacidade empática,
muito mais que o referencial teórico, embora este seja fundamental. É preciso
ter olhos de ver a emoção, em que momento se desperta, com que se conecta, ler a
fantasia é necessário para poder movê-la. E usamos menos os atributos da
racionalidade e mais a capacidade de perceber a linguagem emocional do outro,
que se arranja de forma diferente mas, usa o mesmo alfabeto em todos nós. Este
processo é mais sentido do que pensado, e exatamente por isso pode ser tão mais
exaustivo.
Estar frente à frente com o doente e receber dele essas informações profundas
por um bom tempo, ler os sinais que emite, nos expõe a uma certa toxicidade da
qual precisamos então nos resgatar para ir adiante.
A expectativa do médico, o quanto realmente lhe interessa a cura, suas próprias
fantasias em relação a poder agir sobre determinada condição, são determinantes
para o sucesso do tratamento. O quanto o professor deseja ensinar e confia em
sua capacidade para fazê-lo influi na aprendizagem, e com o médico não é
diferente. Nos dois casos é preciso um fluxo de interesses, um deve ser capaz de
mobilizar no outro o desejo de vitória sobre as condições desfavoráveis.
Acreditamos que se pode agir sobre uma patologia e buscamos firmemente fazê-lo,
então o paciente entende que está sendo ajudado e se identifica com essa força
que provém do terapeuta.
Por isso, não nos podemos deixar influenciar pela fantasia negativa do paciente
a seu próprio respeito, precisamos ter a autoridade de afirmar que a parte que
deseja curar-se deve e pode assumir o comando dessa situação. Precisamos
acreditar nela para que possa crescer, para que possa despertar. Ainda assim,
não temos uma forma de afirmar qual será o resultado da batalha, mas o espírito
com o qual a enfrentamos é fundamental.
Do livro: A Lógica da Emoção:
da psicanálise à física quântica, de Manoelita Dias dos Santos
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